Estes artigos de religião são em quasi todos os pontos eguaes aos Trinta e nove Artigos que constituem o credo da actual Egreja da Inglaterra. As sympathias de Cranmer tinham estado sempre voltadas para Luthero, e elle copiou tres, nem menos, dos seus artigos directamente da Confissão de Augsburgo. Esses artigos foram omittidos na revisão elizabethana, mas, pelo que toca aos pontos essenciaes, os Trinta e dois Artigos de Eduardo e os Trinta e nove Artigos de Isabel são um e o mesmo documento.
Os principios do puritanismo.—A livre discussão da theologia reformada e das idéas da Reforma teve como um dos seus resultados a origem e desenvolvimento, em Inglaterra, de uma theologia que acceitava cabalmente os principios essenciaes da renascença da religião promovida pela Reforma. Um d’estes principios era que Deus se havia collocado tão perto do homem mediante a revelação da Sua pessoa em Jesus Christo, que os homens, apezar de sobrecarregados com o peccado, podiam implorar directamente a Deus o perdão, e, segundo as Suas promessas, recebel-o. As theses de Luthero tinham estabelecido este grande principio da Reforma, e todos os theologos insistiram na possibilidade de se ir directamente ter com Deus sem ser necessaria qualquer mediação humana. A Egreja medieval, por outro lado, havia negado este «sacerdocio espiritual dos crentes»—pois que sacerdocio quer dizer o direito de accesso a Deus—e havia collocado entre Deus e o povo o sacerdocio da Egreja. Tinha tambem tornado visivel o sacerdocio do clero, insistindo em que cada clerigo devia, quando exercesse o culto publico, usar um traje especial, symbolico do seu officio sacerdotal, e havia levantado em cada egreja um altar, ou logar especial onde se realisava o encontro de Deus com o sacerdote.
Aquelles que haviam chegado ao conhecimento da verdade e magnificencia da doutrina da Reforma, de que todos os crentes são sacerdotes que gozam do direito de se approximarem de Deus por meio da fé, e de que qualquer porção do solo onde a alma expectante procura o Deus que a pode perdoar e remir é um altar, não podiam conformar-se com qualquer doutrina ou symbolo visivel do sacerdocio especial do clero. Não se contentavam com a exposição doutrinal das verdades da Reforma, não podiam supportar que o povo fosse desencaminhado por qualquer symbolo ou rito exterior que houvesse sido empregado, nos dias de superstição, para inculcar a falsa doutrina medieval da mediação. Objectavam, portanto, á conservação de todo e qualquer costume ecclesiastico que podesse desencaminhar o povo no tocante a esta importante doutrina. Oppunham-se, especialmente, ao uso das vestimentas ecclesiasticas e dos altares nas egrejas. Estes homens foram os precursores dos puritanos inglezes.
É preciso ter sempre na lembrança que puritanismo não significou ao principio um systema de governo ecclesiastico, e que nada tinha que ver nem com o presbyterianismo nem com o congregacionalismo. Os primeiros puritanos da Inglaterra não protestaram contra o episcopado como systema de governo. As coisas ter-lhes-hiam succedido melhor por fim se o houvessem feito. O seu protesto era contra tudo quanto no credo ou no culto podesse desacreditar a doutrina do sacerdocio universal dos crentes. Era sua opinião que as vestimentas clericaes e os altares nas egrejas obscureciam a verdade vital, e recusavam-se a fazer uso das sobrepelizes e a collocar-se deante dos altares com as costas voltadas para a congregação.
A questão tomou dentro em pouco tempo uma fórma definida. João Hooper, que havia sido monge cisterciano, e que adoptara as idéas da Reforma, tornou-se um prégador de nomeada na Egreja ingleza. Durante os ultimos annos do reinado de Henrique tivera a vida em perigo e havia fugido do reino para Genebra. O contacto que teve com os theologos suissos havia-lhe confirmado os principios, e ao regressar a Inglaterra achava-se resolvido a oppôr-se a todos os ritos que cheirassem a superstição medieval. Em 1550, o seu nome foi recommendado ao rei, quando se tratou de prover o bispado de Gloucester. Ao contrario de João Knox, não fazia objecção ao governo por meio de bispos, e acceitou a nomeação, mas não quiz fazer uso das vestes episcopaes; e recusou-se, egualmente, a proferir a seguinte phrase do juramento: «Assim Deus e todos os santos me ajudem».
Muitos theologos, incluindo Calvino, haviam-se inclinado a considerar estas coisas como de pouca importancia, mas Hooper pensava de differente modo. Martinho Bucer e Pedro Martyr partilhavam a opinião de Calvino, e tentaram demover Hooper da sua resolução por meio de argumentos. Não poderam, porém, convencel-o, e elle recebeu ordem da côrte para se conservar em sua casa e deixar de prégar. Obedeceu, mas no seu forçado afastamento escreveu uma Confissão e Protesto em que expunha com toda a clareza as razões que haviam imperado na sua recusa de fazer uso das vestes prelaticias. Por este seu feito, metteram-n’o na prisão. Passado algum tempo, porém, fez-se um convenio ácerca das vestimentas, foram omittidas do juramento as palavras «e todos os santos», e Hooper foi consagrado bispo de Gloucester. Mas o que havia occorrido fazia prever novas borrascas n’um futuro proximo.
Ridley, um dos mais habeis cabeças do partido da Reforma no tempo de Eduardo, homem de vastos conhecimentos, de grande largueza de idéas, e muito tolerante—havia-se empenhado om que á princeza Maria se concedesse o servir a Deus conforme a vontade d’ella—quando o fizeram bispo de Londres em substituição de Bonner, limpou tambem todas as egrejas da sua diocese das imagens, reliquias e agua benta, e insistiu em que todos os altares fossem removidos e se pozessem em seu logar mesas para a communhão.
Estas coisas eram um mau presagio para o timido accordo entre o romanismo e a Reforma, que era em que consistia o ideal de Cranmer relativamente á Egreja de Inglaterra.
Despertaram uma mais severa opposição da parte de homens que haviam sido sempre partidarios da Egreja medieval. Quando Hooper e Ridley mostraram até onde a Reforma os poderia levar, Gardiner e Bonner redobraram de furia contra elles. O governo teve de refreiar ambos os partidos. Hooper tinha estado preso por causa das suas idéas reformistas. Gardiner e Bonner foram encerrados na Torre por causa das suas idéas medievaes.
A morte de Eduardo VI.—O joven rei nunca havia sido muito robusto, e antes de terminar o anno de 1552 o seu estado de saude alarmou seriamente os principaes vultos do protestantismo. Á herdeira do throno era a princeza Maria, filha de Catharina de Aragão. Tanto o parlamento como a convocação haviam proclamado a sua illegitimidade, mas essas resoluções não tinham grande peso moral. Toda a gente, estava convencida de que Catharina tinha sido a esposa legitima de Henrique, e de que Maria era sua filha, devendo, portanto, esta occupar o throno no caso de Eduardo fallecer. Além d’isso, segundo a lei de successão ao throno, promulgada por Henrique VIII, ella tinha de succeder a Eduardo, no caso d’este não deixar herdeiros.