Maria era uma ferrenha catholica romana, de descendencia hespanhola, que nunca havia esquecido os aggravos de que a mãe fora victima, e que considerava a Reforma como uma rebellião contra Deus e um insulto dirigido a ella propria. Prima de Carlos V, imperador da Allemanha, era uma grande admiradora dos seus talentos e da sua politica, e de muito boa vontade se collocaria n’uma completa dependencia d’elle.
O conhecimento d’estas coisas enchia de anciedade os espiritos dos conselheiros de Eduardo. A subida de Maria ao throno seria um desastre para a Reforma, que os attingiria tambem a elles. Viram que lhes era necessario fazer todo o possivel para que o herdeiro do throno fosse um principe ou princeza protestante.
Eduardo VI havia, em creança, abraçado firmemente o protestantismo, e todo o seu empenho era que o monarca que viesse depois partilhasse as mesmas crenças. Quando viu que lhe restava pouco tempo de vida, resolveu nomear o seu successor. Nada o poude persuadir de que não tivesse o poder de o nomear; e nada o poude induzir a que a nomeação recaisse n’uma de suas irmãs. Elle estava convencido de que eram ambas illegitimas, como o parlamento havia declarado, e que, por conseguinte, não tinham direito algum á successão. Aquelle rapaz, que estava prestes a morrer, era, pela sua tenacidade, um digno representante da casa de Tudor. Poz deliberadamente de parte tanto Isabel como Maria; poz tambem deliberadamente de parte Maria, a joven rainha da Escocia, representante de Margarida, a irmã mais velha de seu pae, e escolheu Joanna Grey, representante de Maria, irmã mais nova de seu pae. Joanna tinha casado com o filho mais velho do conde de Northumberland, e era protestante. Eduardo estava convencido de que o povo havia de acceitar a successora por elle mencionada. Os seus conselheiros estavam convencidos de que o protestantismo estava tão arraigado no paiz que nenhum catholico romano poderia ser bem succedido. Enganavam-se ambos.
Assim que se deu o fallecimento de Eduardo, a rainha Joanna foi devidamente acclamada; mas o povo, tomado de surpreza, não correspondeu á acclamação. A princeza Maria fugiu, mas em volta d’ella reuniu-se muita gente, e o povo secundou as suas reclamações. Passada uma semana, tinha-se vencido toda a opposição, e o throno era de Maria.
A magnanima, formosa e instruida rainha foi presa e decapitada, e o throno foi occupado, com o apoio geral, por uma soberana catholica romana.
O estado da Inglaterra por occasião da acclamação de Maria (1553).—Quando Maria subiu ao throno, a Reforma, como um edificio politico e visivel, com tanto custo levantado por Eduardo e pelos seus conselheiros, desappareceu por completo, como coisa de nenhuma substancia. É que ella havia sido imposta á Inglaterra pelo governo, ao contrario do que acontecera em outros paizes, em que foi imposta ao governo pelo povo ou acceite egualmente por governantes e governados.
Por outro lado, o paiz achava-se em pessimas circumstancias financeiras, devido em parte á crise economica que a Europa estava atravessando, mas devido principalmente ao desmedido fausto da côrte de Henrique VIII, e á depreciação da moeda. O povo attribuia a sua miseria ao governo e a todos os actos salientes das auctoridades. A extincção dos conventos e a venda dos terrenos da Egreja foram logo tidas como a causa das desgraças que affligiam o paiz; e os frades que haviam sido tirados das casas religiosas, e que estavam espalhados pelo paiz na qualidade de parocos e curas, ateiavam o fogo da antipathia pela Reforma, e preparavam o povo para um regimen reaccionario, pelo que dizia respeito á religião.
Gardiner, bispo de Winchester, que havia saido da Torre quando Maria iniciou o seu reinado, e se havia tornado o seu ministro favorito, comprehendeu perfeitamente a situação. Elle sabia que o paiz, na sua quasi totalidade, preferia a antiga religião mas que nunca gostara do papa. Tratou, pois, de promover um regresso á situação em que se estava no principio do reinado de Henrique VIII, sem que, porém, se tornasse tão ostensiva a supremacia real.
Maria, posto que se deixasse guiar por Gardiner, tinha idéas mais arrebatadas. A facilidade com que ella, apoz longos annos de indifferença e abandono, havia cingido a corôa parecia-lhe um indicio de que o povo se estava preparando com regozijo para o restabelecimento da antiga religião e que tinha na conta de tão malefico o que se havia passado nos ultimos annos como ella propria. Como filha de Henrique, e como rainha de Inglaterra, sentia em si o dever de reparar, de accordo com o papa, os ultrajes que a Egreja Romana havia soffrido ás mãos dos estadistas inglezes. Como filha de Catharina de Aragão, e como prima de Carlos V, parecia-lhe que devia prestar o seu auxilio aos hespanhoes, e unir a Inglaterra á Hespanha, tanto no que dizia respeito á politica internacional, como, e ainda mais especialmente, no que dizia respeito á politica ecclesiastica.
A Hespanha necessitava do auxilio da Inglaterra.—Maria subiu ao throno em 1553. O Tratado de Passau, entre os principes protestantes da Allemanha e Carlos V, foi assignado em 1552. Carlos sentia-se forçado a confessar que a Reforma o tinha vencido, quando Maria lhe participou a sua acclamação e lhe supplicou que a aconselhasse. A alliança ingleza era a unica coisa que poderia annullar o triumpho da Reforma, e restituir o bom exito á politica austro-hespanhola. Carlos respondeu immediatamente, e o seu conselho mostrou a anciedade em que elle se encontrava.