—Tal pae, tal filha, minha senhora, respondeu o visconde.
Magdalena córou ligeiramente ao ouvir pronunciar o nome de Martha?
As suspeitas da infeliz, não eram totalmente despidas de fundamento. Magdalena vira por duas vezes Manuel de Mendonça quando elle fôra visitar o operario. O olhar nobre e varonil do commandante, as suas maneiras altivas e ao mesmo tempo insinuantes, tudo concorreu para que se tornasse sympathico. Manuel não o havia notado ou, pelo menos fingiu ignoral-o.
Orgulhosa em demasia, Magdalena jámais teria descido a declarar-se-lhe. Além d'isso, o seu espirito observador fizera-lhe notar que a filha do operario não era totalmente indifferente a Manuel de Mendonça. Quanto ao que se passava no coração de Martha, era um problema difficil de resolver.
Uma tarde em que Magdalena deitava para o Tejo o seu magnifico telescopio, viu um escaler com quatro remadores, e um individuo sentado á prôa. Reconheceu n'esse homem o mysterioso personagem que lhe apparecêra no quarto de Jeronymo! O barco seguia Tejo abaixo. Assestando o oculo, seguiu o em todos os movimentos. Por ultimo, abordou a uma embarcação que estava fundeada em frente da rocha do Conde de Obidos. Manuel saía do escaler e subia para bordo.
Desde essa tarde, Magdalena não perdia ensejo de olhar para aquella pequena embarcação, e quando por ventura sabia que Manuel de Mendonça estava no quarto do operario, buscava sempre esse momento para o ir ver.
—É de suppôr que ainda não tenha ceiado, meu pae, disse Olympia. A ceia deve estar prompta, acho rasoavel que vamos comer alguma coisa.
—Quem havia de ser a primeira a lembrar-se da ceia, respondeu Tristão, passando o braço pela cintura de sua filha, e convidando o visconde a sair da sala.