XXI
No dia seguinte áquelle em que praticâmos a indiscrição de fazer com que o leitor tambem escutasse as ultimas palavras trocadas entre Tristão de Almeida e o visconde de Coruche, achava se este, antes do meio dia, assentado á secretaria do seu escriptorio, chamando todos os criados, e ordenando a cada um que lhe apresentasse as suas contas.
Os moços estavam como que assombrados! Nenhum podia acreditar que elle estivesse habilitado a falar d'aquelle modo. Todos sabiam o estado da sua casa, e a unica esperança que lhes restava, eram as promessas de um agiota a quem tencionavam vender as dividas.
—Aquillo foi obra de jogo, dizia o cocheiro, refinado velhaco, a quem o visconde havia arrancado á miseria.
—Ora, saude! acudiu o trintanario, quem caiu d'ahi abaixo! Quem lhe havia de dar dinheiro para fazer jogo? Ainda não ha muitos dias que elle perdeu cincoenta moedas, e, a respeito de pagal-as, xó rôlla.
—Dê-me elle o que me deve, o mais tanto se me dá como se me deu! Venha o baguinho, e tanto m'importa que fosse ganho ao jogo, como achado, como roubado!
—O mesmo digo eu, mestre Domingos, interrompeu o criado de quarto. Tomára eu sempre que elle estivesse muito endinheirado. Ha lá melhor patrão! Já o viram olhar para alguma conta? Mais ainda; quando lhe apresentavamos os roes, e que elle tinha dinheiro na gaveta da secretaria preta, quantas vezes me dizia: Põe lá a conta e tira o dinheiro. Patrões assim, agarral-os é que custa.
—Pois sim, tudo isso é uma grande verdade, mas, o que é certo, é que está aqui está sem vintem, disse judiciosamente o cosinheiro.
—Isso é lá com elle, mas quem te diz a ti que esse individuo a quem deu os bonecos de prata...