—Que tenho, filha?! Que hei de ter! Dia a dia te vejo mais triste, e ainda perguntas o que tenho? Saudades da tua alegria, dos teus olhos; onde estão as rosas d'essas faces, que eram a inveja das tuas companheiras de collegio? Onde estão emfim os teus sorrisos, que eram a minha ventura? Pensas que só eu tenho notado a tua tristeza, ha oito dias a esta parte? Enganas-te. Já tua mãe a percebeu e a tia Marianna, e todos, até o teu cão! para quem já não tens um só carinho. Dize-me o que sentes, filha, e se eu, ou tua mãe n'alguma coisa te podemos valer, sê franca, Martha. Quem melhor do que teus paes poderão saber os teus segredos? Martha, lembra-te que és a unica alegria que eu e tua pobre mãe temos n'esta vida. Se és boa, como te creio e como todos te consideram, abre-me o teu coração, não me occultes coisa alguma. Vem, filha; deposita no meu peito todos os segredos que te obrigam a olhar para a terra para onde eu não quero que te deixes ir.

Pobre Jeronymo! A dôr tornara-o eloquente! Balbina e a tia Marianna tinham se afastado para occultarem as lagrimas.

Apenas Martha se conservava serena como a estatua da resignação.

—Que me respondes, Martha? continuava o operario.

—Que lhe posso eu responder meu pae.

—Senta-te aqui nos meus joelhos, accrescentou Jeronymo, apertando a cintura da filha e approximando-a para si. Vou contar te uma historia.

«Um dia, um pobre operario, que tinha por unica familia sua mulher e sua filha, ao sair do trabalho foi atropellado por um trem. Levaram-n'o em seguida para uma grande hospedaria aonde foi caridosamente tratado, sem lhe faltar coisa alguma a não ser a sua familia que ignorava aonde elle estivesse. As horas passavam, passavam, e elle sem apparecer. Então a filha, pondo o capote aos hombros, saiu de casa, procurando o pae como uma louca.

«Pessoa alguma lhe dava relação d'elle. A triste desanimára!

«Finalmente encontrou um individuo moço, bello, virtuoso. Esse prometteu-lhe procurar seu pae! A infeliz respirou! D'ahi a duas horas o desconhecido dizia-lhe aonde elle estava.

«Grata a esta primeira prova de dedicação, a filha do operario principiou a amal-o em silencio!