—Tambem, se queres que te diga a verdade, não lhe encontro grande esperteza. Já lá vão duas heranças importantissimas, e ambas tiveram o mesmo fim. Se isto é ser esperto, está o mundo cheio de espertalhões!
—Sabes o que eu chamo ser esperto, é saber lavar a sua roupa em familia, como diz o dictado. De quantas lagrimas não lhe tem sido testemunha o seu travesseiro? Vê tu, se já alguem deixou de lhe encontrar o mesmo sorriso? Dizem todos: o visconde está arruinado, é impossivel que possa aguentar por mais tempo aquella opulencia, em menos de um anno hão-de vel-o miseravel, porém desde que morreu o conde, não abandonou o seu palacio, ainda não despediu um criado, ainda não vendeu um cavallo, ainda não deixou de dar almoços, jantares e ceias! Está arruinado: tão arruinado que não ha muitos dias deu um presente, que valia mil libras. Quem dá um presente de mil libras não póde estar pobre.
—Isso leva agua no bico!...
—E que importa? O que não ha duvida, é que pessoa alguma seria capaz de fazer o que elle tem feito.
—Eu tambem não lhe contesto o seu cavalheirismo.
—E o que lhe tem custado as mulheres e o jogo? Tomára eu ter o dinheiro que lhe ganhei ha uns vinte annos, quando estive associado com um grande espertalhão que havia em Lisboa, chamado Felix de Araujo.
—Felix de Araujo? Não me recordo.
—Um vivo demonio, que fez tudo quanto lhe pareceu em Lisboa, acabando por ter uma casa commercial.
—Ai, ai, agora me lembro. Por signal que roubou uma senhora, a casa de quem ia muitas vezes! A pobresinha foi acabar os seus dias no hospital de S. José. Já sei. Era um tratante de marca maior, que fez a desgraça de muita gente. Nunca mais se soube d'elle?
—Disseram-me que tinha morrido envenenado na Costa d'Africa. Que a terra lhe seja leve, que eu, assim como assim, não tenho razão de queixa da sua pessoa; basta lembrar-me que o pouco que sei a elle lh'o devo.