—O pouco que sabe! Se eu soubesse metade...
—Aquillo é que eram mãos! Aquillo é que era dar um salto com limpeza, sem que o baralho desse o mais pequeno estallido! E trabalhar com cinco dados! e tirar ao pegote!
—É verdade, é verdade! A ultima vez que joguei com elle foi em casa do barão. Por tal signal que me roubou quatorze notas de dez moedas á banca portugueza.
—Se aquelle homem não tivesse morrido, com a audacia que possuia, ainda tinha voltado a Portugal...
—O que estará fazendo o visconde?
—Como não usa de cerimonia para comnosco, provavelmente dá as suas ordens para que tudo se faça segundo os seus desejos.
Passava-se este dialogo entre Gil de Carvalho e Bernardo de Paiva.
O primeiro, era um jogador de profissão e refinado velhaco, ao qual todas as portas se abriam por um d'esses desleixos imperdoaveis que é susceptivel em toda a sociedade de grandes capitaes.
Relacionando-se com os individuos que frequentavam certa sociedade onde o jogo era permittido por distracção, Gil de Carvalho introduziu se nos principaes salões de Lisboa.
Ninguem sabia a sua procedencia! As suas maneiras quasi sempre delicadas, resentiam-se comtudo da primitiva educação!