Gil teria uns sessenta annos. A sua fortuna era um mytho. Uns diziam que estava pobre; outros, calculando pelo que havia roubado ao jogo, attribuiam lhe riquezas enormes.

Bernardo de Paiva era um homem pouco mais ou menos da edade do seu interlocutor. Herdára de seus paes uns vinte ou trinta contos de réis e dissipára-os immediatamente em mil loucuras, sendo a principal o jogo, que ainda hoje o dominava com poder immenso!

Bernardo descendia em linha recta de uma das mais distinctas familias de Olhão. Aparentado com muitos individuos de Lisboa, Bernardo com mais algum direito do que Gil de Carvalho, tinha entrada em todas as casas. Ao contrario de Gil, a sua physionomia era sympathica e insinuante.

Jantar onde elle estivesse, corria sempre alegre e animado. Além do seu vivíssimo esprit, tinha outra qualidade que o tornava estimado em todos os circulos: não dizia mal de ninguem. A sua bocca era sagrada, como judiciosamente affirmava o mordomo do visconde de Coruche.

Quando Gil e Bernardo de Paiva se dirigiram para uma saccada que olhava para o pateo, onde se ouviu o rodar de um trem, correu-se um dos reposteiros e appareceu o visconde.

—Peço-lhes que me desculpem esta demora, mas não me foi possivel evital-a. Adoeceu de repente o meu mordomo, tenho de o substituir.

—Pela minha parte estás desculpado, disse Bernardo de Paiva, sorrindo-se para o visconde.

—Repito o mesmo, acudiu Gil.

—Não adivinhas, de quem estamos falando? disse Bernardo dirigindo se ao visconde.

—N'aquelle mariola de Felix Justino de Araujo, accrescentou Gil de Carvalho.