—Quando alli cheguei, continuou Tristão, augmentaram-se-me os padecimentos. Querem saber os resultados? Vão admirar-se da força da minha vontade. Fui receber um doente, que pouco tempo depois me expirou nos braços. Aquella rapida transposição da vida para a morte, aquelle instante incalculavel que medeia entre o ser e o nada, entre a vontade e abstracção, longe de aterrar, robusteceu-me o espirito e, escudado pela confiança em um mundo melhor e mais perfeito, reanimou-me a ponto de me sentir completamente restabelecido.
—É mais uma prova da sua religião, meu caro amigo, interrompeu Bernardo de Paiva. Os que se aterram em presença do moribundo e na observação do cadaver, é porque receiam o desconhecido! Os que se baseiam nos preconceitos do vulgo, apegando se á vida, e receiando a morte, que, segundo as suas crenças, os colloca em contacto com a Divindade, não são mais que uns miseraveis, uns vermes que vivem e rastejam para a sua e nossa deshonra! A morte, para todo o homem de intelligencia clara e illustrada, não é mais que o principio de uma vida infinita.
Espiritos pobres e tacanhos que se lamentam a cada segundo, dizendo que lhes peza a vida, empallidecem quando a morte de longe lhes acena com as suas azas, brancas para elles que sopezam constantemente a desgraça nas suas longas noites de interminavel soffrimento.
Receiam morrer! Elles que deviam tomar a existencia com um eterno castigo! Que melhor somno para o desgraçado do que o da morte, dormido sob a lousa! Preferem o bulicio da vida á paz do eterno repouso, o andrajo ao sudario, a fome á anniquilação!
—Isso é uma grande verdade, mas a maior parte do mundo não pensa como vossa excelencia, respondeu Tristão. Duas ou tres vezes tenho visto a morte deante de mim, e nunca me atemorizou! Tenho a minha consciencia bastante socegada para me apresentar deante de Deus! Não receio o seu julgamento. Diziam-me em Buenos-Ayres que era um homem de um valor desmedido, emquanto eu não passava de um pobre diabo a quem os peccados não perseguiam na existencia, porque nunca os havia procurado. Digo procurado, porque o homem, a maior parte das vezes, pecca mais por vaidade do que por instincto. Tenho umas theorias, falsas talvez para o seculo em que vivemos, mas que apezar de tudo não desprezo. Deus que fez o homem á sua similhança, ao lançal-o ao mundo, revestiu-o de bons instinctos, porém, a sociedade envenenando-lhe o coração, insinuou-o no crime e apresentou-lh'o atravez de um prisma seductor. Então os seus olhos fascinaram-se, a vontade esmoreceu-lhe, e o coração propenso sempre a ser dominado ao primeiro impulso, extraviou-se da razão e lançou-se cego e inexperiente n'esse dedalo artificioso a que a humanidade nos arrasta! Satanaz ri-se, mas Deus, que tudo perdôa, espera o momento supremo para indultar o peccador e á humanidade que o perverteu! Esta é a minha opinião.
—Sabem quem hontem ganhou trezentas e tantas moedas? interrompeu Gil de Carvalho voltando-se para o visconde. Aquillo é que foi sorte, accrescentou elle, sem notar o espanto que a sua interrupção havia produzido nos circumstantes. Fez um circo, depois outro, depois outro, e bumba, lambeu tudo quanto havia sobre a banca.
—Mas a que proposito vem isso, sr. Gil de Carvalho? perguntou o visconde, emquanto Tristão de Almeida o contemplava com simulado espanto.
—Isto veiu a proposito... d'aquillo em que eu estava pensando, respondeu Gil de Carvalho tornando a cahir no mesmo estado de profunda reflexão.
—Excentricidade do nosso amigo Gil, acudiu Bernardo de Paiva, olhando intelligentemente para o visconde.
O magnate conservava-se frio e sereno como um yankee, entre os quaes largos annos havia habitado.