—Gosta de jogar? perguntou Gil de Carvalho voltando-se para Tristão.

O visconde e Bernardo estremeceram de raiva.

—É uma coisa que ás vezes me diverte, respondeu-lhe Tristão. Não admitto o jogo por vicio, mas, assim de vez emquando, depois de um jantar ou de uma ceia, encontro-lhe alguma distracção, ainda que as poucas vezes que tenho jogado tem sido quasi sempre com uma infelicidade extraordinaria! A ultima foi em França, aonde perdi n'uma só noite duzentos mil francos. O divertimento foi caro, é verdade, mas distrahi-me.

Ao ouvir estas palavras, os olhos de Gil de Carvalho brilharam de visivel alegria. Tinha as suas esperanças realizadas!

O visconde nem pestanejou!

Assim estiveram conversando sobre varios assumptos até que appareceram todos os individuos que o visconde havia convidado.

Ás seis horas foram para a sala de jantar, cuja mesa brilhantemente adornada, revelava a opulencia e bom gosto do dono d'aquella habitação maravilhosa. O jantar correu animadissimo! Bernardo de Paiva, como sempre, esteve esplendido de graça. Tristão de Almeida com grave assombro dos convivas que pela primeira vez o viam e sobre tudo do visconde, que o julgava um homem trivial, apresentou-se totalmente opposto ao que o suppunham.

«Este homem é um mysterio», pensava o visconde, ao mesmo tempo que saudando-o em repetidas libações, fazia as maiores diligencias de o toldar.

Inuteis foram porém todos os seus esforços; o convidado bebia por elles todos, sem que o mais leve indicio de incommodo lhe transtornasse a serenidade da sua imperturbavel physionomia.

Ás nove horas, levantaram-se todos da mesa, e foram para outra sala, onde os esperava o café.