—E porque fez elle isso tudo? resmungou a beata. Sô para que depois se dissesse pela visinhança que eram uns santinhos. Que santinhos de pau carunchoso!
—Seja lá pelo que fôr, o grande caso é que salvaram aquella embarcação que ia dar á costa, acudiu Mascatudo.
—Pelo que vejo respondeu Monica contemplando o marinheiro, vossemecê anda sobre as aguas do mar? Que o Senhor dos Navegantes, a quem mesmo agora acabo de rezar duas estações, o livre de todos os perigos, meu filho; e possa tambem a Senhora da Bonança andar sempre em sua companhia. Padre nosso que estaes nos céos... continuou ella.
—Então o que se diz por ahi de Jeronymo, tia Monica, perguntou Mascatudo, começando a tratal-a com certa confiança.
—Ora! O que se ha de dizer! O que se diz sempre d'um homem que consente que sua filha esteja fóra de casa, e que venha a altas horas da noite, muitas vezes acompanhada por um individuo, que vem sósinho com ella dentro d'um trem. Quem elle é ainda eu não pude descobrir, mas, agora que felizmente já consegui encaixar-me no hospital e fazer conhecimento com as meninas... vou descobrir quem é o melro.
Mascatudo sentiu um estremecimento por todo o corpo. Elle que a julgava pura como um anjo, começava a duvidar da sua virtude. E não tinha mais remedio senão contar tudo que ouvira.
—Agora que já tenho lá entrada como lhe ia dizendo, é que hei de saber qual dos amigos do fidalgo, é o que está acostumado a acompanhal-a. E a boa da tia Marianna, sempre por toda a parte a dizer d'ella mil maravilhas, e eu a saber como os meus dedos, a peça que é a creancinha! Dizem-me que anda sempre muito triste. Deus sabe como ella andará! Que Deus me perdoe de fazer maus juizos!... exclamou a beata curvando a cabeça.
Outro que não fosse Mascatudo, teria regeitado as opiniões da execravel beata, porém ferido por aquella primeira impressão, o caracter fogoso e ao mesmo tempo selvagem do marinheiro, levou-o a acreditar em tudo quanto lhe haviam dito! Sem descer a mais indagações, e abandonando ao caixeiro a segunda meia canada que mandara encher, Mascatudo pagou o que devia, e sem quasi se despedir nem d'um nem d'outro, saiu apressadamente da loja. Seguindo pela rua da Lapa, desceu a rua de S. Domingos, e entrando nas Janellas Verdes, alcançou a rocha do Conde de Obidos, aonde embarcou para bordo da galera.
Manuel de Mendonça, passeiando á prôa, aguardava com impaciencia o resultado da commissão do marinheiro.
Os olhos de Mascatudo arrazados de lagrimas, seguiam os movimentos do seu commandante. O pobre homem receiava os instantes que o approximavam de Manuel de Mendonça, afim de lhe participar o que se havia passado.