—Pois olhe, tia Monica, veja como eu sou, se tivesse a certeza de que Martha era de ha muito amada por Manuel de Mendonça, creia que embora eu morresse de paixão, seria capaz de me sacrificar, a ponto de ser eu a propria madrinha do seu casamento. Hontem estava pensando n'isso. Mas o que eu queria, era ter uma certeza. Se o que tem conservado Martha n'aquelle estado, é uma paixão, serei eu a propria, embora d'isso me resulte a morte, a fazer todas as diligencias de os reunir. Se elle fôr nobre, pedirei a meu pae, que tire de meu dote alguns contos de réis, para collocar aquella pobre criança n'uma posição que lhe não envergonhe os seus pergaminhos. Porém se esse amor que eu supponho existir no coração de Martha, não fôr mais do que uma desconfiança, então Monica, se lhe não fôr indifferente, rico ou desventurado, nobre ou plebeu, Manuel de Mendonça será o meu esposo, porque o amo muito, muito, tia Monica!
E a pobre Magdalena, tremula e offegante, debalde tentava occultar as lagrimas que a suffocavam!
Era muito de ver-se o contraste d'estas duas creaturas! Magdalena, o amor, a generosidade, a pureza de affectos! Monica, a mentira, a ambição, a crapula emfim de todos os sentimentos!
Alma candida e inexperiente, não avaliava sequer a immensa distancia que as separava. A pomba approximava-se d'aquelle asqueroso reptil, sem comprehender com quantas voltas lhe poderia enrolar o seu pescoço de neve!
Ao escutar aquellas palavras que tão claramente denunciavam a ingenuidade da sua alma, a tia Monica julgou perder a partida. Além dos lucros que esperava obter servindo de intermediaria n'aquelles amores, havia um outro sentimento que a dominava, mais forte talvez que o primeiro: o desejo de se vingar da familia de Jeronymo! Desejo infundado, sem motivo algum, explicado apenas por aquella profunda inveja que os bons mais ou menos inspiram aos que o não são nem o desejam ser!
Envenenando-lhe o seio com o ervado punhal do ciume, a tia Monica poderia fazer com que retirassem a sua protecção ao mestre de obras. Poderia fazer com que Magdalena, odiando a pobre Martha, lhe roubasse a pessoa a quem ella amava, ficando apenas reduzida á miseria e ao descredito que por toda a parte lhe proclamava.
Eram estas as suas idéas, idéas que principiavam a desvanecer se, á proporção que ia lendo na alma de Magdalena toda a grandeza d'aquelle coração, immenso como a agonia que o dilacerava!
—Veja, continuava Magdalena, se por esse individuo, me póde saber, custe o que custar, se Manuel de Mendonça escreve a Martha, se a vê, ou se por ultimo se encontram.
—E se por ventura se amarem? perguntou rapidamente a beata.
—Abençoal-os-hei! respondeu Magdalena como se ao pronunciar estas palavras se lhe rasgasse o coração.