Manuel de Mendonça levantou o seu oculo, e descobriu o rosto pallido e insinuante de Magdalena.
Não era esse o semblante que elle cuidava encontrar; comtudo, continuou por alguns segundos esperando ainda descobrir a imagem que durante a sua terrivel enfermidade o havia perseguido. Mas tal não succedeu. Magdalena continuando a olhar, parecia não perder um segundo da sua persistente observação.
Desalentado, metteu o oculo debaixo do braço, e caminhou serenamente para a ré.
Então um milhão de reminiscencias lhe acudiu á memoria. Lembrou-se d'aquelle dia em que Magdalena o contemplára tão demoradamente, quando fôra visitar Jeronymo.
«Quem sabe, pensou elle, se esta mulher me ama, e se lançou mão d'alguma intriga para desconceituar a meus olhos a filha do operario? Se tal fosse! Veremos o que pensa Mascatudo. Não façamos juizos temerarios. Que importa que eu vá visitar seu pae? Não lh'o prometti eu?»
Erguendo o seu telescopio, Manuel assestou-o pela segunda vez na direcção do hospital, onde Magdalena se conservava ainda no seu posto de observação. O maritimo, voltando as costas desceu á camara onde Mascatudo o aguardava.
Quem n'esse momento tivesse entrado no hospital da rua de S. Francisco de Paula, e houvesse subido aquelle terceiro andar, onde Magdalena se achava, teria ouvido o som da queda de um corpo e uma voz entrecortada pelos soluços, soltando estas palavras:
—Amam-se, não ha duvida!
—Maldito caldo de gallinha, puff, está a escaldar! dizia uma outra voz. Era a de Olympia.