XXVIII
Graças aos rasgos de valor e profunda dedicação que o dono do hospital da rua de S. Francisco de Paula espalhava a cada a hora sobre a cidade de Lisboa, o seu nome tornou-se popular.
Todos á uma desejavam encontrar esse homem, que, arriscando constantemente não só a sua preciosa existencia, como tambem a de sua mulher e duas filhas, se chegava hoje ao leito do moribundo com palavras consoladoras, ámanhã amortalhava o cadaver de outro por cuja existencia batalhára até a ultima. Era de justiça, mais do que justiça, indispensavel até conceder-se-lhe a mercê em que sua magestade dias antes havia falado com o ministro do reino, segundo este havia dito ao visconde de Coruche.
Uma manhã em que o visconde, fazendo a sua demorada toilette, se preparava para ir ao hospital, foi procural-o o conselheiro Poderosa.
—Sua magestade encarregou-me hontem de te procurar, fiado na amisade que existe entre ti e o Tristão da Almeida.
—Estou ás ordens de sua magestade, respondeu o visconde.
—El-rei deseja agraciar Tristão de Almeida com o titulo de conde, e mandou-me que te viesse procurar com o fim de lhe perguntares qual o nome que deseja juntar ao titulo.
—Quanto agradeço a honra que el-rei me dispensa, fazendo-me intermediario para um acto de tanta justiça! Tencionava hoje passar o dia em casa, mas, em virtude das ordens de el-rei, corro immediatamente a casa do meu amigo, afim de lh'o participar, e juntamente pedir-lhe que me diga o nome que deseja juntar a esse titulo.
—Nunca se fez um acto de maior justiça, disse o conselheiro.
—Escuso de te repetir que sou da mesma opinião.