Os olhos da creança inundaram-se de lagrimas. A mentira jámais havia passado por seus labios! A infeliz não sabia que responder.
—Responda, minha irmã. Até hoje homem algum lhe feriu esse coração? Jura-m'o?
Haveria ainda algum vestigio de esperança no coração de Magdalena ao insistir n'aquellas perguntas? Sabia-o Deus e a sua alma!
Martha sem responder agarrou-se ao pescoço de Magdalena e desatou n'uma torrente de lagrimas.
—Perdôe-me, disse ella emfim, mas eu não sabia que o amava. Foi o primeiro homem que meus olhos viram. Havia tanta bondade, tanta nobreza no seu caracter! A quantas pessoas perguntei por meu pae, todas me responderam brutalmente que não sabiam quem elle era. Aterrada com a minha desgraça, encontrei-me só, completamente só. Então, appareceu o sr. Manuel de Mendonça; promptificou-se a procurar meu pae, e encontrou-o. Desde esse dia, a sua imagem ficou-me impressa na memoria. Quiz esquecêl-o, mas era-me completamente impossivel! Dias depois, vi-o. O que eu sentia na minha alma, foi crescendo, crescendo gradualmente, até que reconheci que o amava. Quando já era tarde foi então que comprehendi toda a loucura do meu sentimento, avaliando ao mesmo tempo a immensa distancia que nos separava. Um dia, descobri que esse homem era amado por quem melhor do que eu o merecia. A dôr quebrava-me a alma, mas a ninguem revelava a minha angustia! Desde então, minha boa amiga, entendi que o melhor era esperar resignada o momento em que Deus me chamasse á sua divina presença sem ter deixado no mundo um rastro de ingratidão! Ame-o, sr.ª Magdalena! Amem-se, que são dignos um do outro, e, se um dia se recordarem da pobre Martha, vão ambos, rezem-lhe uma oração sobre a sua sepultura, e lembrem-se da que está no reino dos tristes pedindo a Deus pela sua ventura e pela felicidade do sr. Manuel de Mendonça!
—E quem te disse a ti, filha, que esse homem era amado por mim?
—O meu coração, respondeu Martha, inclinando a cabeça no travesseiro.
—Illudiu-te, e o tempo t'o provará, respondeu-lhe Magdalena. Eu nunca o amei! accrescentou ella, empregando n'estas ultimas palavras todo o valor da sua alma. Eu só quero a tua felicidade, Martha.
—A minha felicidade está no céu, respondeu a infeliz, levantando os olhos para o tecto.
—Enganas-te! exclamou Magdalena. A tua felicidade está nos braços d'esse homem como a sua ventura deve estar n'um coração nobre e generoso como o teu! Já a mim mesma o prometti, irei hoje preparar o teu bem estar. Agora, filha, accrescentou Magdalena, que esses teus olhos se enxuguem para sempre, e que as lagrimas desçam sobre os meus para jámais os abandonar. E abraçando estreitamente a pobre creança, Magdalena sahiu do quarto, e sem quasi se despedir de Balbina, deixou a casa do operario e partiu para o hotel Bragança!