«Parece que sobre a nossa familia peza uma grande desgraça, continuou a filha de Tristão de Almeida olhando para o pequeno horto. De que serve a enorme riqueza de meu pae! A sua alegria, é sempre aquella eterna mascara com que tenta encobrir as lagrimas que o devoram na eterna solidão de sua alma. Minha mãe, afeita a illudir, tem chegado a convencer-se que é muito feliz, não passando d'uma desgraçada! Eu, que tenho passado uma existencia de tristeza, no momento em que pela primeira vez na vida me poderia considerar venturosa, vem o destino, e corta-me rapidamente o fio da minha felicidade. Olympia, graças ao seu genio, é a unica fadada para a completa tranquillidade da alma! Vive e come, pobre irmã, que seria o mesmo que dizer-te: vive e sê feliz!
«Falarei com Martha, e hoje mesmo lançar-me-hei aos pés de meu pae, pedindo-lhe que d'esse dote dos quatrocentos contos que tantas vezes me tem promettido me conceda apenas cincoenta para dar a Martha, e depois de os ver ambos casados, felizes, abençoando a minha mão que lhe estreitou a sua ventura, eu então, ou buscarei a morte, ou fechar-me-hei entre as grades d'um convento!»
N'este comenos entrou Balbina. Martha havia accordado e esperava a visita de Magdalena.
Esta sem mais hesitar, entrou no quarto da criança, e, occultando a custo as lagrimas que a suffocavam, lançou-se sobre o leito abraçando a pobre amiga.
—Ha dias que desejo falar-lhe sobre um assumpto muito importante, porém, a sua eterna reserva para todas as pessoas que deveras a estimam, tem sido a causa de me não ter atrevido, disse-lhe Magdalena. Quem mais do que Martha possue corações verdadeiramente dedicados? accrescentou ella. Não vê que está offendendo a Deus que a protege? Porque pensa em morrer, minha amiga? Não vê que morrendo, mataria sua mãe, seu pae, e que fará soffrer a todos que se interessam pela sua vida? Por que motivo se tem occultado á sombra da sua agonia sem buscar um peito amigo com quem desabafe os seus desgostos? Não tinha minha irmã? Não me tinha a mim? á sua propria mãe? Quem melhor do que ella, podia ser a confidente dos seus segredos?
—Segredos! Eu? murmurou Martha.
—Sim, Martha; segredos e muito importantes. Não queira negar-me o que sei.
—Não tenho coisa alguma a negar, minha boa menina, respondeu Martha, como se já não tivesse forças para sustentar aquelle dialogo.
Insciente do mal que as suas palavras poderiam influir no espirito de Martha, Magdalena seguia apenas a que o seu coração lhe ordenava.
—Nunca amou ninguem, Martha? Seja sincera commigo. Deposite as suas magoas n'este coração que lhe quer tanto como se fosse sua propria irmã.