Em menos de um quarto de hora, Manuel de Mendonça acompanhado por Mascatudo, desembarcava na rocha do conde de Obidos e, subindo a rampa, dirigia-se para a rua do Meio.
—Se lhe parece, disse Mascatudo ao chegarem á rua das Praças, vamos á tenda em que lhe falei. O caixeiro, que já é meu conhecido, póde nos dar mais algumas informações.
—Confesso-te que me vae custando esta espionagem, respondeu placidamente Manuel de Mendonça.
Seria a delicadeza da sua alma, ou o receio de saber alguma circumstancia menos favoravel ácerca da vida intima de Martha, que fazia com que o maritimo fugisse a mais investigações?
Deixaremos isto ao juizo da intelligente leitora, que para casos de tal monta não nos julgamos habilitados.
Ao chegar defronte da casa onde habitava a filha do operario, Manuel de Mendonça estremeceu. Lembrou-se da noite em que pela primeira vez a encontrára, quando ella com as supplicas de piedade lhe pediu entre lagrimas que a ajudasse a procurar seu pae. Logo, recordou-se das duas ou tres vezes que a vira no hotel Bragança, quando ainda as boccas maliciosas não se haviam aberto para lhe cuspir o fel da maledicencia. Em toda a pureza angelica da sua castidade, Martha desenhava-se-lhe deante dos olhos, como muitas e muitas vezes a imagem grata de sua mãe lhe apparecia por entre as nevoas da tarde, quando a galera, sulcando as aguas do oceano, o conduzia a estranhos climas onde nem um só coração amigo se lhe approximava.
Mascatudo comprehendeu-lhe o soffrimento.
—Que devemos fazer? perguntou Manuel.