—Não o sabia, minha senhora, respondeu Manuel começando tambem a perturbar-se.
—Ha quinze dias que a infeliz, deitada sobre o leito da agonia, olha para o céu que lhe pertence. Hontem, que foi a ultima vez que lá estive, o medico sahiu completamente desanimado. A sua enfermidade é menos physica do que moral, e só á ultima hora lhe podemos descobrir a causa.
—E essa causa é?... perguntou Manuel.
—Amar um homem que a tem desprezado! Aquelle anjo, occultando a todos o sentimento que a devora, reclinou se sobre a sua sepultura, aguardando apenas que lh'a venham abrir para desprender a alma a Deus!
Os olhos de Manuel humedeceram se de lagrimas. Havia tanto sentimento nas palavras de Magdalena, a sua voz, ainda ha pouco perturbada, tornára-se tão firme e tão segura, que elle não pôde ver em Magdalena mais do que uma amiga verdadeira e dedicada de Martha.
—E onde existe esse homem que a póde salvar?
—Onde existe?... accudiu Magdalena com uma expressão que principiava a denunciar-lhe o seu estado. Esse homem... accrescentou ella, é... o sr. Manuel de Mendonça!
—Eu! exclamou o maritimo n'um transporte de indescriptivel alegria.
—Sim, continuou Magdalena. O senhor, em cujo espirito adivinhou inteira a sua felicidade. O senhor a quem uma vez encontrou na existencia para nunca mais o esquecer! Mais tarde, o seu coração candido e inexperiente fez-lhe conhecer que o amava. O seu nascimento, a humildade de educação, a pobreza de seus paes, tudo emfim concorreu para que Martha não se atrevesse a declarar a pessoa alguma o amor que o senhor lhe tinha inspirado. Emquanto teve forças, lutou, mas um dia, exhausta, a pobre Martha cahiu como essas flores delicadas que não têem força bastante para supportarem a furia dos elementos. Hontem, finalmente, abriu-me inteira a sua alma, alma candida e serena como a dos anjos que hoje lhe tecem o seu diadema de martyr! Sem lhe descortinar as minhas ideias, resolvi commigo mesma de o procurar, e pedir-lhe que salve da morte a minha pobre amiga. Não sei quem v. s.ª é, porém, julgo-o um homem de bem e capaz de fazer a felicidade de qualquer mulher.
Pallida, com as fontes palpitantes e os olhos afogueados por aquella immensa lucta em que a alma se lhe debatia, Magdalena parecia elevar-se nas azas de uma inspiração sublime! Levantando depois a voz que principiava a enfraquecer-lhe, Magdalena pediu a Manuel que lhe concedesse a sua mão para a filha do operario.