—Não comprehendo, murmurou o conselheiro.

—Pois eu t'o explico. Magdalena dirigindo-se pela opinião geral, julga-me incapaz de ser um bom marido, por estes dez ou doze annos, emquanto tiver sangue na guelra, segundo a phrase de Olympia! Ora, meu amigo, Magdalena é ciumenta como uma leôa, que não admitte que se divida o coração, prefere morrer por mim, abraçada á cruz do seu amor, do que ser minha, sem ter fé na fidelidade da minha alma. Comprehendes?

—Olha, se queres que te diga a verdade, não comprehendo bem essas cousas. Ahi tens tu porque eu gosto da minha Olympia. Quanto a essa, estou certo que me não ha de atormentar muito com ciumes, nem aturdir-me com aquelles estirados monologos de sentimento, em que Magdalena está constantemente delirando. Sempre te disse que não trocava a minha felicidade pela tua, se por ventura viesses a ser meu cunhado, o que jámais pude acreditar, e se queres que seja sincero comtigo, nunca me pude aperceber d'essa paixão, que tu dizias ter-lhe inspirado, apezar de m'a estares querendo metter pelos olhos. E que tencionas fazer? ajuntou elle mudando de tom.

—Que tenciono fazer! Conformar-me com o meu destino, como ella...

—Como ella quê? interrompeu o conselheiro, recolheres te tambem a um convento?

—Não, mas esquecel-a em todas as loucuras da vida! No jogo, na embriaguez...

—Mau systema, respondeu o conselheiro.

—Sabes uma cousa, João? acudiu o visconde despeitado com a serenidade do conselheiro.

—Dize, respondeu este fleugmaticamente.

—Está-me revoltando essa tua serenidade! Devias interessar-te mais por mim, lembra-te...