—Que te sou devedor da minha futura felicidade, mas que queres! Creio pouco na tua paixão. Tenho-te visto trinta vezes apaixonado, e no dia seguinte, curado d'esse sentimento com o coração prompto e limpo para receber outro que te appareça. Se fosses pobre como eu, se tivesses as minhas theorias sobre o dinheiro, então poderia acreditar que estavas penalizado pela entrada no convento, porém como se não dá isso, felizmente para ti, pouco tenho a compadecer-me. Ámanhã por estas horas, completamente esquecido de Magdalena, apaixonas-te por qualquer mulher que seduzes pelo teu ouro e pela tua intelligencia, e appareces-me d'aqui a dias curado d'essa paixão que te atormenta.
O visconde mordeu os beiços de raiva. Havia tanto de ironia nas palavras do conselheiro, que não tardou muito que as intenções lhe fossem completamente denunciadas.
—Que tencionas portanto fazer? perguntou elle a Poderosa, querendo dissimular a perturbação que lhe haviam produzido as suas palavras.
—Que tenciono fazer? Ir immediatamente para Buenos-Ayres. E tu?
—Tenho muitas voltas a dar, não poderei ir senão de tarde. E despedindo-se do conselheiro, o visconde saiu, deixando o entregue ás suas profundas reflexões.
«Pobre visconde! Realmente, compadeço-te. Quanto melhor te fôra o teres sido sincero para commigo. Se tens sido esperto, apanhavas-me cincoenta ou sessenta contos por me teres conseguido este casamento. Assim, melhor foi, custar-me-ha apenas cincoenta ou sessenta libras!»
Meia hora depois, o conselheiro mandou buscar um trem, e dirigiu-se para Buenos-Ayres.
XXXIX
São tres horas da tarde. O palacio dos condes de S. Luiz, que na vespera ainda brilhantemente illuminado, abria os seus magnificos salões á primeira sociedade de Lisboa, apresenta se agora entristecido como fachada de edificio legendario!