É que a morte, estranha e indifferente a todas as grandezas humanas, assenta-se melancholicamente sobre os degraus d'aquellas escadas de marmore, e, erguendo-se de vez em quando, fixa o seu olhar invisivel, que atravessando as salas, vae pousar lugubremente no rosto pallido e cadaverico do conde de S. Luiz!
Tristão sente-lhe as mãos frias e descarnadas pesando-lhe sobre o peito. Quer falar; a voz prende-se-lhe na garganta! De vez em quando, levanta um olhar de piedade para um Christo, que de braços abertos o contempla da sua cruz, como se o convidasse a recolher-se ao seu divino seio! Então o conde torna a abaixar os olhos como se aquella imagem o assustasse, e, levantando ao mesmo tempo uma das mãos, pede a Magdalena que se lhe approxime.
Ha quatro horas que não fala! Para maior expiação, a sua intelligencia está clara e completamente serena!
Magdalena, debruçada sobre o leito, pegando n'um lenço de cambraia, limpa-lhe de vez em quando o rosto banhado por um suor lento e copioso. O seu rosto, denota-lhe o martyrio e a resignação.
A condessa, curvada n'uma poltrona, descança a fronte nas mãos, erguendo-se de minuto em minuto para contemplar o infeliz esposo. O seu olhar é triste, mas resignado como o de sua filha.
Olympia ao fundo do quarto, sentada n'um sophá tapa os olhos com um lenço de assoar, mastigando occulta e prestidigiosamente, umas bolachinhas de agua e sal.
O commendador Lopes de Miranda e o banqueiro Vaz Mendes, ora se approximam dos pés do leito, ora se dirigem aos outros gabinetes, onde uma multidão de individuos esperam com anciedade saber o estado do enfermo.
N'este comenos entra o conselheiro Poderosa. Demora-se um minuto olhando para o conde, e, engatilhando um gesto de sofrimento dirige-se para a condessa.
Esta extende-lhe silenciosamente a mão, occultando ao mesmo tempo o rosto com um lenço de cambraia.
João Poderosa fica immovel por alguns segundos, e em seguimento retira-se para falar com Olympia.