—Perdoar-lhe tudo, para que Deus tambem me perdôe os meus peccados, respondeu ainda D. Marianna.

—Perdôa-me tambem, Manuel de Mendonça? disse o conde. Perdoa a este homem, que durante vinte e tres annos o separou de tudo quanto tinha de mais caro no mundo! Perdoa a este homem, accrescentou elle, que conduziu sua mãe á miseria e á loucura.

—Perdoae-lhe, Senhor, como eu lh'o perdôo de todo o meu coração, respondeu Manuel de Mendonça, voltando-se para a cruz do Redemptor, juiz supremo d'esta tocante scena.

—Morrerei tranquillo, disse então o moribundo, com a voz já enfraquecida.

—Que Deus perdôe ao pae d'aquelle anjo, disse D. Marianna caindo de joelhos, e apontando para a porta por onde Magdalena havia saido.

—Diz bem, D. Marianna; d'aquelle anjo, accrescentou o conde de S. Luiz. Foi aquella candida pomba a encarregada por Deus para me conduzir á sua divina presença! A ella devo o seu perdão, sr.ª D. Marianna!

—E eu devo-lhe o meu filho, respondeu D. Marianna, arrastando-se de joelhos sobre a alcatifa, até se collocar deante do Christo. Pela vossa infinita misericordia, exclamou ella levantando as mãos para a cruz, perdoae-lhe Senhor, como eu de todo o coração lhe perdôo, e queira a vossa infinita vontade conservar-lhe largos annos de vida, para que este arrependido conheça a sinceridade das minhas palavras.

—Chamem a minha filha que deve estar n'aquelle quarto, murmurou o conde, voltando-se para Manuel de Mendonça, e apontando para uma porta que separava os dois aposentos.

Magdalena entrou immediatamente. Ainda que dotada de uma organização robustissima, a infeliz, já principiava a resentir-se de tantas commoções.

D. Marianna, lançando-se-lhe nos braços, debalde tentava occultar as lagrimas.