Sympathizando com as maneiras da viuva e condoido pela sua desgraça, o director levou-a para casa da sua familia.

Finalmente, graças ás relações do seu protector, D. Marianna tomou posse do que lhe restava. Entre louça, moveis e roupas brancas apurou dois contos e duzentos mil réis.

Alugou uma casa proxima á dos seus protectores, entregou-lhes o resto para lh'o empregarem no que melhor lhes parecesse, até que o destino, cançado de a torturar, lhe proporcionasse a maior de todas as felicidades: devolver-lhe o filho querido da sua alma!

Debalde se passaram annos e annos, e o destino sem se compadecer da sua desventura.

Os dezeseis vintens que pouco mais ou menos lhe rendiam as inscripções, juntos aos ganhos que os seus bordados lhe produziam, eram mais do que sufficiente para o seu alimento. Infeliz de todo não se considerava D. Marianna, e ingrata seria para com Deus se da sua sorte se queixasse. Era já muito o amparo que lhe concedia a Providencia representada nas pessoas do director e de sua mulher; porém a desgraça que parecia ter-se aninhado no seu coração, não podia permittir-lhe que descesse á sepultura sem que primeiro a bafejasse uma vez ainda com o seu halito envenenador. Levou-lhe em menos d'um anno as duas unicas pessoas que tinha sobre a terra: o director e sua esposa!

Aterrada com esse golpe, julgou de novo enlouquecer!

Querendo mudar-se do bairro, que lhe recordava os seus protectores, á sombra de cuja amizade tanto tempo se abrigára, lembrou-se de ir viver para a Lapa.

Uma tarde saiu, e dirigindo-se para aquelles sitios encontrou na rua do Meio a casa que lhe convinha. Dois dias depois, alugou e mudou para alli a sua pequena mobilia. Foi onde oito annos depois a encontramos atacada pela febre amarella.

A pobre senhora, na doce esperança de ainda tornar a vêr seu filho, economizava, quanto cabia em suas forças, os poucos haveres que lhe restavam.

«Este dinheiro, dizia ella ás vezes comsigo olhando para as inscripções, não me pertence, é de meu filho; cumpre-me fazer tudo quanto possivel me fôr para lh'o augmentar.»