—O tempo que leva uma carta ao estrangeiro. Olhe, sr.ª Maria Gertrudes, se vossemecê quer, não diga nada ao criado, que eu mesmo me encarrego de a escrever. Por agora o que devemos fazer é ir a casa do sr. regedor. Já com este são cinco dias que estamos aturando aquella doida, e bem vê que isto não póde durar por muito tempo.

—Lá n'isso tem muita razão.

—Ora ainda bem; então mãos á obra.


Maria Gertrudes resolveu-se a ir falar ao regedor.

N'essa mesma tarde, a infeliz senhora, que cinco dias antes se considerava rica e cheia de ventura, entrava na enfermaria das alienadas como uma simples pedinte sem protecção e sem abrigo. Quando dois mezes depois, informado pelos visinhos, soube o regedor o que se estava passando em casa de D. Marianna de Mendonça e como os seus creados de dia para dia iam roubando os haveres, entendeu-se com o juiz eleito, e entrando em casa, viram com effeito que não eram mal fundadas as suspeitas da visinhança.

A carta remettida para o estrangeiro ainda não tinha chegado ás mãos de Manuel de Mendonça, e a desgraçada continuava no hospital sem que nenhum dos creados fosse indagar o seu estado.

No dia seguinte, o juiz mandou tomar posse de tudo quanto existia, e depois de competentemente inventariado, collocou no meio da rua aquelles dedicados servos que tão tranquillamente habitavam a casa de sua ama sem ao menos saberem se ainda existia ou não.

Pelo espaço de sete annos, esteve D. Marianna nas enfermarias de S. José. Finalmente, recobrou a razão e deram-lhe alta.

Antes da saida pediu para falar com o director. Depois de lhe confiar todos os pormenores da sua vida, perguntou-lhe se durante a sua enfermidade alguem tinha vindo informar-se da sua saude.