—Quer tornar-se mysterioso, acudiu Lopes de Miranda.
—Provavelmente é algum rapaz acanhado que não sabe estar entre gente fina, disse D. Maria Egypciaca.
—Não sou d'essa opinião; pelo contrario, pareceu-me um moço de um trato finissimo, mas excessivamente modesto para se conservar n'este quarto. Receiava que o cobrissem de elogios. Não achas Magdalena? ajuntou Tristão dirigindo-se a sua filha.
—N'isso mesmo pensava eu, meu pae, respondeu Magdalena. Quando o sr. Vaz Mendes o alcunhou de indelicado, de mysterioso o sr. Lopes de Miranda, e de pouco sociavel minha mãe, não concordei com opinião nenhuma d'essas. Julgo o como meu pae: modesto de mais para escutar os elogios de que é merecedor.
—Que innocencia! gargalhou Vaz Mendes. Quem se esquiva a ser elogiado?
—Muita gente, sr. Vaz Mendes, ainda que não seja senão por egoismo. O elogio frivolo e banal, inscripto no codigo da civilidade, é uma ironia pungente para o que tem a consciencia do seu merito. Ha o louvor que anima e a adulação que fere. O incenso nem sempre é agradavel; está muitas vezes pendente da mão que balança o thuribulo, e comtudo sempre é incenso.
—Quer vossa excellencia dizer que os nossos encomios o poderiam offender? perguntou o visconde.
—Nem por sombras, sr. visconde! Não era essa a minha intenção, respondeu Magdalena approximando se de sua irmã.
—Não seria melhor deixarmos em paz esta pobre gente? disse Olympia em voz baixa para sua mãe. E demais, acrescentou ella, já se vão approximando as horas do chá, e se quer que lhe diga a verdade, estou sentindo uma fraqueza...
—Bemdito Deus, respondeu D. Maria Egypciaca, sempre, sempre pensando em comer.