«Quando, possuidor de algum dinheiro, tentei voltar á Europa afim de ver minha mãe, disseram-me na Bahia, poucos dias antes de embarcar, que a pobre estava reduzida á miseria. Vim para Lisboa, e ao chegar descobri a terrivel verdade, que tinha morrido no hospital dos alienados!

«Aterrado, saí immediatamente de Portugal, buscando nos transportes de uma vida arriscada esquecer a dôr que me feria. Como eu sorri á tormenta que parecia zombar da minha agonia! Com que desejo ardente de seguir minha mãe eu me lancei em tudo quanto havia de perigoso, e Deus sempre a proteger-me, como se me estivesse guardando para algum fim sobre a terra. E que poderei eu esperar? Que felicidade posso conceber lembrando-me que, emquanto dispendia contos e contos de réis, jazia a minha infeliz mãe nas palhas d'um hospital?

«Nada, continuava Manuel de Mendonça, passeiando pelo seu quarto do hotel da Europa. Permitta Deus, ajuntava elle, que ámanhã termine o negocio que espero e que possa levantar ferro quanto antes.»

N'este momento, baterem mansamente á porta do quarto.

—Entre, disse Manuel, volvendo os olhos para a porta.

Um individuo alto e excessivamente delgado levantou o ferrolho, e entrou no gabinete.

O homem chamava-se Luiz, por alcunha o Mascatudo.

A camaradagem que Mascatudo tivera por largos annos com os irlandezes, a bordo dos seus navios mercantes, introduziu lhe por tal forma o vicio de mascar tabaco, que o pobre Luiz, quando o não tinha, era capaz de mascar tudo quanto lhe apparecesse.

Contava-se d'elle a seguinte anecdota, que prova a quanto aquelle vicio o arrastava:

N'uma viagem a Macau, acabára-se-lhe o tabaco. Receiando a tripulação que se prolongasse a derrota, defenderam todos das maxillas do tio Luiz a preciosa planta que começava a escassear-lhes.