O marujo empallideceu, mas não teve mais remedio do que cumprir as ordens do commandante.

Meia hora depois ouviu-se á ré um grande motim, e viu-se entre os apupos e os risos da tripulação o tio Luiz gravemente compromettido, com uma bota de cano no pé direito e no esquerdo uma especie de sapato de mulher completamente franjado.

O tabaco que os seus companheiros injustamente lhe attribuiam, era o cano da bota esquerda, que o tio Luiz mascára durante os onze dias de atrazo. O marujo preparava-se para entrar pelo pé esquerdo se por ventura não deitam ferro defronte da grande cidade.

Os creditos foram-lhe de novo restituidos, e desde esse dia o tio Luiz foi conhecido a bordo pela alcunha de Mascatudo.

O tio Luiz tinha quarenta e dois annos. O seu valor e honradez faziam com que todos o estimassem.

Quando Manuel de Mendonça comprou em Buenos-Ayres uma galera, Mascatudo foi-lhe o mais recommendado entre os tripulantes que lhe inculcaram. Desde esse dia até ao momento que o vemos entrar no hotel, Manuel de Mendonça nunca teve um momento de se arrepender da profunda confiança que n'elle tinha depositado. De todos os seus amigos, como chamava aos seus tripulantes, Mascatudo era o mais intimo, sem que nenhum dos outros jámais levantasse a voz para deprimir as nobres qualidades do seu companheiro de perigos.

Mascatudo havia perdido sua mãe, unico parente que lhe restava, e que elle adorava com todo o ardor do seu coração, coração grande e ingenuo, como de todo o homem que passa a vida separado do resto da humanidade, entre a colera dos elementos e a mercê do Creador!

Seria esta circumstancia que fazia com que essas duas almas se casassem? Era o! Nos espiritos irmãos pelo infortunio, vasa Deus o balsamo da sympathia para que possam juntos enlaçar os soffrimentos que os pungem.

Era bello vel-os, quando á noite, ao lado um do outro, contemplavam em religioso silencio a solidão das aguas, olhando de vez em quando para o céo, como se alli procurassem algum vestigio d'aquellas que lhes haviam dado o ser. Outras vezes, sosinhos na sua camara, Mascatudo contava a Manuel as suas viagens, acabando quasi sempre por lhe ler as cartas que sua mãe lhe escrevia, e que aquelle já ha muito sabia de cór.

Era portanto este o amigo a quem Manuel abria inteira a sua alma, e em cujo coração depositava todos os segredos da sua vida aventurosa.