Embevecido no seu phantasioso sonho, com as palpebras semi-fechadas, extendia de vez em quando a mão para sua filha, a qual, beijando lh'a n'um transporte de amor filial, fazia ao mesmo tempo votos ao Todo Poderoso para que lhe melhorasse quanto antes o seu querido pae. Balbina, assentada no canapé, olhava ora para Jeronymo, ora para sua filha. Esta, sorrindo meigamente, apontava para o leito de seu pae, como se tentasse mostrar-lhe o socego em que elle repousava.

De repente o ferido abriu os olhos, e, como se despertasse de um sonho, apertou brandamente as mãos da filha, fitando-a com toda a ternura do amor paternal.

—Como se acha? perguntou Martha levantando-se da cadeira e debruçando-se-lhe sobre o leito.

Balbina approximou se.

—Tenho menos dôres, balbuciou o enfermo, e espero em Deus que não tardará muito que eu te possa extender estes braços que a muito custo levanto. Mas não me dirão quem é esta santa familia que com tanto amor nos tem tractado? acrescentou elle, dirigindo-se a sua esposa.

—Ignoro, respondeu Balbina.

—Foi alguem mandado por Deus para nos valer com a sua protecção, continuou elle, como se ainda o acompanhasse aquelle sonho.

—Pois olhe, meu pae, acudiu Martha, apezar de tudo, preferia estar em nossa casa a vêl-o aqui entre estas cortinas.

—Se d'isto resultar a tua felicidade, e a tua, ajuntou elle voltando-se para Balbina, terei de agradecer a Deus estas dôres que me atormentam.

—Pois eu, Jeronymo, ainda que tudo quanto Deus faz é para melhor, desejava bem vêr-te fóra d'este quarto, disse a pobre Balbina olhando ao mesmo tempo para a porta.