—Cumprirei as ordens de vossa excellencia. Que fato quer? perguntou elle, dirigindo-se para uma commoda á Luiz XV, sobre a qual estava um cofre de tartaruga.

—Um fraque e collete preto, com quaesquer calças de côr.

—Agora por isso, sr. visconde, disse o criado pondo nos punhos da camisa dois magnificos camafeus de Italia, veiu cá hontem um individuo com uma conta do alfaiate, e como vossa excellencia não estivesse em casa, disse-lhe que viesse ámanhã, em sendo duas horas.

—Fizeste muito mal, respondeu o visconde mergulhando uma pequena escova de dentes n'um liquido pardacento, e levando-a repetidas vezes ao bigode. Já te disse que nunca se mandam receber contas senão no fim dos mezes.

—Pois foi exactamente por esse motivo que o mandei cá vir ámanhã, que é o ultimo de outubro.

—Já te disse ha pouco que o meu fim do mez é sempre o de novembro, respondeu o visconde encolerizado, passando a escova por sobre o labio inferior, e deixando o côr de chocolate.

—O mesmo disse eu ao sr. Alves, quando a semana passada o procurou por causa d'aquella letra de 600$000 réis que se vence no primeiro de novembro.

—E elle insiste em não querer a reforma?

—Creio que insiste. O alquilé a quem vossa excellencia comprou as eguas baias, foi dizer-lhe que o sr. visconde promettia pagar-lhe tudo no primeiro de novembro.

—Veremos o que se ha de fazer, disse o visconde, esfregando com uma essencia a nodoa côr de castanha que lhe descompunha a phisionomia. Dá-me d'alli umas ceroulas de seda. É preciso que vás logo ao Baron que me mande uma duzia de camisolas.