—Cumprirei com as ordens de vossa excellencia, respondeu o criado, abrindo a gaveta d'uma commoda, e tirando um par de ceroulas de malha de seda.
—Se alguem me procurar ás tres horas da tarde, dize lhe que não volte antes do primeiro de novembro, caso não queira perder o tempo, disse o visconde, atirando para longe com umas lindas chinellas de velludo bordadas a oiro, e vestindo ao mesmo tempo as ceroulas.
—Vossa excellencia sae a cavallo ou de trem?
—O dia está tão bonito que me parece melhor saír a cavallo. Sim, continuou elle, depois de reflectir alguns segundos, dize ao Marçal que me apparelhe a egua lazã. É necessario montal-a; ha perto de oito dias que não sáe.
Depois de collocar sobre uma ottomana o fato do visconde, o criado abriu a porta do toucador, e saíndo foi transmittir as ordens que seu patrão lhe dera.
—Sim senhores! a coisa não vae feia, dizia o visconde de si para comsigo. Se não levanto o dinheiro do deposito estou arruinado. O credito escassea-me, os credores, longe de me sustentarem a posição que seria o unico recurso para se embolsarem do que lhes devo, começam a negar-se e até me atormentam. Fazem bem, o futuro lhes dará o pago e tambem Deus, que de vez em quando ainda se recorda de mim.
«Não encontro meio algum de salvação! Se apeio os trens, se revelo, ainda que por sombras, o estado da minha casa, não tarda a ruina, seguindo-se a poucos passos a miseria, com toda a sua hediondez que me assusta.
«Devo a todos, e aos que me devem não me atrevo a pedir-lhes contas; não, seria uma loucura para a situação em que me encontro. Exigindo-lhes essas miseraveis quantias, seria mostrar-lhes que as necessito, e eu não tenho mais remedio senão representar que estou rico. Quanto custa esta falsa posição! Á custa de quantas insomnias se adquire um nome que não dá honra no presente nem tão pouco no futuro! Que luctas inglorias! Quem me dera ter nascido filho de um lavrador, e gosar em branda paz os encantos d'uma vida tranquilla. E os homens julgam me feliz! quantos dariam metade dos seus haveres para terem o meu nome! Pobres nescios! Vêem os meus trens, os meus cavallos, os meus vestuarios, e mal pensam as horas que todo esse fausto me rouba ao somno.
«Vi a meus pés as primeiras mulheres de Lisboa, por mais de uma vez, com as faces incendiadas pela colera do ciume, vi os maridos a contemplarem-me, e eu mudo, indifferente, com o sorriso nos labios, desprezando-as a ellas, e escarnecendo d'elles.
«Quanto dera agora por ter amado uma unica vez, e ter consagrado a esse objecto do meu amor toda a exuberancia da minha vida, todo o ardor das minhas paixões.