Era muito de vêr-se o aceio e a disciplina que reinavam a bordo da galera Esperança, habilmente commandada por Manuel de Mendonça, cujos conhecimentos nauticos fariam inveja ao mais experimentado maritimo.

Com sobejos motivos chamava elle aos seus tripulantes os seus amigos e companheiros! A amizade e a confiança com que os tractava jámais concorreu para que lhe dessem o minimo desgosto de indisciplina.

Durante a folga todos o tractavam como se elle fôra um amigo, no serviço todos o respeitavam como o seu commandante. Quando por qualquer circumstancia se agitava a mais pequena questão entre os marinheiros, e elle apparecia perguntando-lhes a causa, era bello de vêr como esses homens endurecidos pelas luctas dos elementos, se enterneciam ao ouvir as palavras do seu capitão chamando-os á ordem, e expondo-lhes em phrases insinuantes as terriveis consequencias da má camaradagem.

Então, aquelles que momentos antes se haviam levantado exaltados pela colera, graças á eloquencia de Manuel, acabavam sempre por se abraçarem.

A galera fundeada a pouca distancia da Rocha do conde de Obidos, parecia na sua eterna inquietação aguardar o que era dono e commandante.

Quando um velho marinheiro divisou o escaler do capitão, e este sentado á prôa, o maritimo debruçou-se do navio como criada velha que espera á janella a criança que volve ao lar.

Então começaram a apparecer os outros marinheiros, esperando anciosamente que o escaler abordasse á embarcação.

E a galera agitando-se aos movimentos da corrente, parecia tambem esperal-o inquieta.

Finalmente, o escaler atracou, e Manuel subindo por uma pequena escada de corda entrou a bordo seguido por Mascatudo.

Quem de perto observasse o tractamento que elle dava aos marinheiros, e ignorasse o logar que occupava, tel-o-ia tomado por um simples navegante.