Depois de falar a todos aquelles homens, desceu á camara, e alli, em companhia de Mascatudo, continuou a conversação que uma hora antes havia começado no hotel Europe.
—Estamos aqui mais sós para podermos falar, dizia elle ao marinheiro. Ninguem poderá ouvir as nossas palavras a não ser o mar, e Deus que nos escuta.
—O mesmo me acontece, respondia-lhe Mascatudo. Não sei o que sinto quando passo uma noite encarcerado entre as quatro paredes de uma hospedaria! Acordar pela noite velha sem ouvir o rumor da agua batendo de encontro á quilha da embarcação, e sem ver o lume de alguma estrella reflectindo-se de vez em quando como se estivesse a acompanhar o meu dormir, parece que é acordar n'um tumulo.
—Quero pedir-te um favor, disse Manuel de Mendonça, depois de alguns instantes de profunda meditação. Como já t'o disse, sei apenas que ficaram no hotel de Bragança. Desejava saber quanto se tem passado, mas falta-me o valor para ir eu mesmo proceder a indagações. Terias duvida em ir procurar essa familia da minha parte?
—Eu! exclamou o marinheiro. E porque motivo? Foi alguma acção má a que o sr. praticou? Ora essa! É para já. Não tem mais do que dizer-me o sitio onde tenho de me dirigir.
—Aonde te disse, ao hotel de Bragança. Se ainda lá estiverem, pede ao guarda portão que te conduza ao quarto. Pergunta por sua mulher ou por Martha, e dize a qualquer das duas que vaes da minha parte saber da saude de Jeronymo.
—É só isso o que deseja saber? Veja lá; lembre-se bem, ajuntou Mascatudo, sorrindo-se para o seu commandante.
—É só isto.
—E o sr. fica á minha espera, aonde?
—A bordo.