—Venho prevenil-os de que já temos casa para o hospital, e que ámanhã por estas horas—graças á actividade do sr. visconde—já devem começar os trabalhos, disse Tristão de Almeida, reparando ao mesmo tempo em Manuel de Mendonça e Mascatudo.
Estes ultimos olhavam para os recemchegados, sem poderem occultar que as suas presenças se lhes não tinham tornado muito sympathicas.
—Estes senhores pertencem á sua familia? perguntou o visconde dirigindo-se a Martha.
—Não, senhor, respondeu Martha. E indicando Manuel de Mendonça, accrescentou: este senhor foi quem me encontrou na rua, e que mais tarde descobriu aonde estava meu pae.
—Ah! foi este senhor! acudiu Tristão. Quanto folgo em ter o gosto de o conhecer. Se me não engano, n'aquella mesma noite tive o prazer de o encontrar; porém, quando ia para lhe extender a mão, já vossa senhoria tinha saido d'este quarto, ajuntou Tristão dirigindo-se a Manuel de Mendonça e extendendo-lhe brandamente a mão.
Se n'aquella noite do atropellamento os olhos de Manuel de Mendonça se haviam cravado particularmente no rosto de Tristão, mais cuidadosamente o fixaram n'aquelle momento.
O mesmo se passou com o magnate. Dir-se-ia que esses dois homens já se haviam encontrado alguma vez na vida! Onde? Sabia-o Deus, que n'esse instante os não illucidava!
O physionomista que de perto observasse o rosto de Manuel, ter-lhe-ia notado um estremecimento de repulsão no momento em que, extendendo a mão, a sentiu em contacto com a de Tristão de Almeida.
A Mascatudo não lhe passou desapercebido.
—Queira Deus, pensava elle comsigo, que o sr. Manuel de Mendonça não comece já a imaginar que lhe querem estorvar a pesca. Se elle vê que lhe lançam a fisga, põe-se de ventas á enchente e vae tudo com trezentos mil diabos. Elle é bom, isso lá é que não ha duvida, mas, se lhe pegam fogo ao paiol da polvora, vae tudo pelos ares em mil estilhaços.