—Que gosto muito d'ella, respondeu Manuel de Mendonça olhando para as paredes do edificio como se buscasse a janella do quarto onde havia ficado a familia do operario.
XVIII
São dez horas da manhã. Deitado no seu leito de precioso ebano, e fazendo mil conjecturas ácerca de Tristão, a quem na vespera havia convidado para almoçar, o visconde de Coruche, como homem experimentado, palpa, estuda e analysa o terreno por onde tem de caminhar.
Tudo estava prevenido para o almoço. Uma grande parte da baixella, que dias antes tinha sido substituida no prégo por outros objectos cuja ausencia se não fazia notar, já estava sobre os aparadores. Entre os riquissimos trabalhos de prata destacava-se um pelo seu grande valor e merito artistico.
Era um centro de mesa. Representava as tres graças sustentando uma enorme concha.
Era esta, por assim dizer, a ultima reliquia que lhe restava do seu para sempre chorado tio!
«Fiz mal, pensava elle, em não ter convidado o commendador e Vaz Mendes, para almoçarem commigo. Podem prever n'isto alguma insidia e intrigarem-me com o meu Cresus! É mais prudente escrever-lhes. E sem mais delonga, levantou-se e desceu ao escriptorio, formoso aposento ao rez do jardim, esplendida e custosamente mobilado.
«E pensar que tudo isto é sol de pouca dura! accrescentava elle olhando para as estufas do jardim. Não terei valor para cair com a minha ruina? Hei de ver de pé firme e olhar sereno, sair d'esta casa para o poder dos agiotas, até á ultima, todas estas reliquias? Deus não póde permittir que um homem que tem vivido e gozado como eu, se encontre um dia a braços com a miseria! É forçoso tomar uma deliberação. Tenho ainda uns seis mezes para viver, é pouco; prolongue-se a existencia, custe o que custar. Homicidio é um crime, e deixar-me escorregar na pendente do meu infortunio é um suicidio. Não quero ser criminoso.
«Arvores a cuja sombra me abriguei na minha infancia, nem vós já me pertenceis! continuava elle olhando para o vetusto arvoredo do jardim.