Tel-a-ia esquecido?
Impossivel! Aquelles olhos não lhe haviam mentido! As ultimas palavras que proferira, revelavam bem todo o interesse que ella lhe tinha inspirado. Teria adoecido com a febre? Morrido? Não! Morrer tão novo, tão anciosamente adorado! Deus não consentiria que elle deixasse este mundo sem que Martha lhe houvesse assistido ao derradeiro sopro d'aquella vida, que era todo o seu querer, todo o seu pensar, toda a sua existencia! Manuel vivia, mas havia a esquecido por outra. Magdalena contemplára-o com interesse, n'uma tarde em que se encontraram na varanda do hotel! Ainda que Manuel não lhe respondeu ao seu olhar, podia tudo isso ter sido um calculo.
«Quem sabe se eu fui um instrumento da sua vontade, fazendo-me suppôr que era a mim e só a mim a quem elle amava, emquanto o seu coração estava inclinado para a filha de Tristão? pensava Martha. Mas sendo assim, tudo poderei descobrir; e se fôr, buscarei a morte como ultimo recurso á minha desgraça.»
Immersa n'estas terriveis conjecturas, Martha desceu ás salas do hospital.
Já haviam entrado D. Maria Egypciaca e suas filhas.
Notando a profunda pallidez da filha de Jeronymo, as fidalgas, segundo Martha lhe chamava, começaram a receiar pela sua saude.
Magdalena foi a primeira a approximar-se-lhe, e beijando a meigamente na fronte, pediu lhe por tudo quanto havia que não arriscasse tanto a sua saude, perdendo as noites ao lado dos doentes.
Durante todo esse dia, aonde mais intensos reinavam o perigo e a afflicção, alli se encontrava Martha!
Quando ao anoitecer a familia de Tristão se preparava para sair do hospital, Magdalena insistiu com a filha do operario para que tambem se retirasse. Foram inuteis todos os seus esforços. Pretextando que tinha de ficar com seu pae, Martha acompanhou-as até á carruagem e voltando depois para o terceiro andar, tornou a encostar-se áquella janella onde a encontrámos no principio d'este capitulo.
Deixemos a infeliz criança enchugando em silencio as suas primeiras lagrimas, e dirijamo-nos ao hotel Bragança.