Os primeiros se occultárão
Da Deosa nos olhos bellos;
Qual se enlaçou nos cabellos;
Qual ás faces se prendêo.
Hum amorinho cansado
Cahio dos labios ao seio,
E nos peitos se escondêo.
Outro Genio mais astuto
Este novo ardil alcança,
Muda-se n'uma criança
De divino parecer.
Esconde as azas, e a venda;
Esconde as settas, e quanto
Póde dá-lo a conhecer.
Ella que vê hum menino
Todo de graças cuberto,
Tão risonho, e tão esperto
Alli sózinho brincar.
A elle endireita os passos;
Finge Amor ter medo, e a Deosa
Mais se empenha em lhe pegar.
Ella corria chamando;
Elle fugia, e chorava:
Assim forão onde estava
O descuidado Pastor.
Este, mal vio a belleza,
E o gentil menino, entende
A malicia do traidor.
Põe as mãos sobre os ouvidos,
Cerra os olhos, e constante
Não quer ver o seu semblante,
Não o quer ouvir fallar.
Qual Ulysses n'outra idade
Para illudir as Serêas
Mandou tambores tocar.
Cupido, que a empreza via,
Julga o intento frustrado,
E de raiva transportado
O corpo no chão lançou.
Traçou a lingoa nos dentes;
Mettêo as unas no rosto,
E os cabellos arrancou.
O Genio, que se escondia
Entre os peitos da Pastora,
Erguêo a cabeça fóra,
E o successo conhecêo.
Deixa o socego em que estava,
E vai ligeiro metter-se
No peito do bom Dirceo.
Apenas c'o brando peito
Lhe tocou a neve fria,
Com o calor que trazia
Lhe abrazou o coração.
Dá o Pastor hum suspiro,
Abre os seus olhos, e sólta
Do apertado ouvido a mão.
Logo que virão os Genios
Ao triste Pastor disposto
Para ver o lindo rosto,
Para as palavras ouvir.
Cada hum as armas toma,
Cada hum com ellas busca
Seu terno peito ferir.
Com os cabellos da Deosa
Lhe fórma hum Cupido laços,
Que lhe segurão os braços,
Como se fossem grilhões.
O Pastor já não resiste;
Antes beija satisfeito
As suas doces prizões.