LYRA XXVI.
O destro Cupido hum dia
Extrahio mimosas cores
De frescos lyros, e rosas,
De jasmins, e de outras flores.
Com as mais delgadas pennas
Usa de huma, e de outra tinta,
E nos angulos do cobre
A quatro bellezas pinta.
Por fazer pensar a todos
No seu lizo centro escreve
Hum letreiro, que pergunta:
Este espaço a quem se deve?
Venus, que vio a pintura,
E lêo a letra engenhosa,
Pôz por baixo: Eu delle cedo;
Dê-se a Marilia formosa.
LYRA XXVII.
Alexandre, Marilia, qual o rio
Que engrossando no Inverno tudo arraza;
Na frente das cohortes
Cérca, vence, abraza
As Cidades mais fortes.
Foi na gloria das armas o primeiro,
Morrêo na flor dos annos, e já tinha
Vencido o mundo inteiro.
Mas este bom Soldado, cujo nome
Não ha poder algum, que não abata,
Foi, Marilia, sómente
Hum ditozo pirata,
Hum salteador valente.
Se não tem huma fama baixa, e escura;
Foi por se pôr ao lado da injustiça
A insolente ventura.
O grande Cesar, cujo nome vôa,
Á sua mesma Patria a fé quebranta;
Na mão a espada toma,
Opprime-lhe a garganta,
Dá Senhores a Roma.
Consegue ser heróe por hum delicto;
Se acaso não vencesse então seria
Hum vil traidor proscripto.
O ser heróe, Marilia, não consiste
Em queimar os Imperios: move a guerra,
Espalha o sangue humano,
E despovoa a terra
Tambem o máo tyranno.
Consiste o ser heróe em viver justo:
E tanto póde ser heróe o pobre,
Como o maior Augusto.