Eu he que sou heróe, Marilia bella,
Seguindo da virtude a honroza estrada.
Ganhei, ganhei hum throno.
Ah! não manchei a espada,
Não a roubei ao dono.
Ergui-o no teu peito, e nos teus braços:
E valem muito mais que o mundo inteiro
Huns tão ditosos laços.

Aos barbaros, injustos vencedores
Atormentão remorsos, e cuidados;
Nem descanção seguros
Nos Palacios cercados
De tropa, e de altos muros.
E a quantos nos não mostra a sabia historia
A quem mudou o fado em negro opprobrio
A mal ganhada gloria?

Eu vivo, minha bella, sim, eu vivo
Nos braços do descanço, e mais do gosto:
Quando estou acordado,
Contemplo no teu rosto
De graças adornado;
Se durmo logo sonho, e alli te vejo.
Ah! nem desperto, nem dormindo sóbe
A mais o meu desejo.

LYRA XXVIII.

Cupido tirando
Dos hombros a aljava,
N'um campo de flores
Contente brincava.

E o corpo tenrinho
Depois enfadado,
Incauto reclina
Na relva do prado.

Marilia formosa,
Que ao Deos conhecia,
Occulta espreitava
Quanto elle fazia.

Mal julga que dorme
Se chega contente,
As armas lhe furta,
E o Deos a não sente.

Os Faunos, mal virão
As armas roubadas,
Sahirão das grutas
Soltando rizadas.

Acorda Cupido,
E a causa sabendo,
A quantos o insultão
Responde, dizendo: