LYRA XXX.
Junto a huma clara fonte
A mãi de Amor se sentou:
Encostou na mão o rosto,
No leve somno pegou.
Cupido, que a vio de longe,
Contente ao lugar corrêo;
Cuidando que era Marilia
Na face hum beijo lhe dêo.
Acorda Venus irada:
Amor a conhece; e então
Da ousadia, que teve,
Assim lhe pede o perdão:
Foi facil, ó Mãe formosa,
Foi facil o engano meu;
Que o semblante de Marilia
He todo o semblante teu.
LYRA XXXI.
Minha Marilia,
Se tens belleza,
Da natureza
He hum favor.
Mas se aos vindouros
Teu nome passa,
He só por graça
Do Deos de amor,
Que terno inflamma
A mente, o peito
Do teu Pastor.
Em vão se virão
Perlas mimosas,
Jasmins, e rosas
No rosto teu.
Em vão terias
Essas estrellas,
E as tranças bellas
Que o Ceo te dêo;
Se em doce verso
Não as cantasse
O bom Dirceo.
O voraz tempo
Ligeiro corre:
Com elle morre
A perfeição.
Essa, que o Egypto
Sábia modera,
De Marco impera
No coração;
Mas já Octavio
Não sente a força
Do seu grilhão.
Ah! vem, ó bella,
E o teu querido
Ao Deos Cupido
Louvores dar;
Pois faz que todos
Com igual sorte
Do tempo, e morte
Possão zombar:
Tu por formosa,
E elle, Marilia,
Por te cantar.