Mas ai! Marilia,
Que de hum amante,
Por mais que cante,
Gloria não vem!
Amor se pinta
Menino, e cego:
No doce emprêgo
Do charo bem
Não vê defeitos,
E augmenta, quantas
Bellezas tem.
Nenhum dos Vates,
Em teu conceito,
Nutrio no peito
Nescia paixão?
Todas aquellas,
Que vês cantadas,
Forão dotadas
De perfeição?
Forão queridas;
Porém formosas
Talvez que não.
Porém que importa
Não valha nada
Seres cantada
Do teu Dirceo?
Tu tens, Marilia,
Cantor celeste;
O meu Glauceste
A voz ergueo;
Irá teu nome
Aos fins da Terra,
E ao mesmo Ceo.
Quando nas azas
Do leve vento
Ao Firmamento
Teu nome for:
Mostrando Jove
Graça extremosa,
Mudando a Esposa
De inveja a côr;
De todos ha-de,
Voltando o rosto,
Sorrir-se Amor.
Ah! não se manche
Teu brando peito
Do vil defeito
Da ingratidão:
Os versos beija,
Gentil Pastora,
A penna adora,
Respeita a mão,
A mão discreta,
Que te segura
A duração.
LYRA XXXII.
N'uma noite socegado
Velhos papeis revolvia,
E por ver de que tratavão
Hum por hum a todos lia.
Erão copias emendadas
De quantos versos melhores
Eu compuz na tenra idade
A meus diversos amores.
Aqui leio justas queixas
Contra a ventura formadas,
Leio excessos mal acceitos,
Doces promessas quebradas.
Vendo sem razões tamanhas
Eu exclamo transportado:
Que finezas tão mal feitas!
Que tempo tão mal passado!