Junto pois n'hum grande monte
Os soltos papeis, e logo,
Porque reliquias não fiquem,
Os intento pôr no fogo.
Então vejo que o Deos cego
Com semblante carregado
Assim me falla, e crimina
O meu intento acertado.
Queres queimar esses versos?
Dize, Pastor attrevido,
Essas Lyras não te forão
Inspiradas por Cupido?
Achas que de taes amores
Não deve existir memoria?
Sepultando esses triunfos,
Não roubas a minha gloria?
Disse Amor; e mal se calla,
Nos seus hombros a mão pondo,
Com hum semblante sereno
Assim á queixa respondo:
Depois, Amor, de me dares
A minha Marilia bella,
Devo guardar humas Lyras,
Que não são em honra della?
E que importa, Amor, que importa
Que a estes papeis destrua;
Se he tua esta maõ; que os rasga,
Se a chamma, que os queima, he tua?
Apenas Amor me escuta
Manda que os lance nas brazas;
E ergue a chamma c'o vento,
Que formou batendo as azas.
LYRA XXXIII.
Péga na lyra sonora,
Péga meu charo Glauceste;
E ferindo as cordas de ouro,
Mostra aos rusticos Pastores
A formosura celeste
De Marilia, meus amores.
Ah, pinta, pinta
A minha bella!
E em nada a cópia
Se affaste della.