Aqui me enruga a Deosa irada a testa;
E fica sem fallar hum breve espaço.
Alegra, alegra o rosto,
Prosegue, alli te faço
Restituir o posto.
Respondo com ar de mofa, e tom sereno.
Conheço-te, Fortuna,
Posso morrer pequeno.
Aqui te dou, me diz, a tua amada.
Então me banho todo de alegria
Cuidei, me torna a cega,
Que essa alma não queria
Nem esta mesma entrega.
He esse o bem, respondo, que me move;
Mas este bem he santo,
Vem só da mão de Jove.
Queria mais fallar; eu insoffrido
Desta maneira rompo os seus accentos:
Basta, Fortuna, basta;
Estes breves momentos
Lá noutras coizas gasta;
Da minha sorte nada mais contemplo.
E chamando Marilia
Suspiro, e deixo o Templo.
LYRA IX.
A estas horas
Eu procurava
Os meus Amores;
Tinhão-me inveja
Os mais Pastores.
A porta abria,
Inda esfregando
Os olhos bellos,
Sem flor, nem fitta
Nos seus cabellos:
Ah! que assim mesmo
Sem compostura,
He mais formosa,
Que a estrella d'alva;
Que a fresca rosa.
Mal eu a via,
Hum ar mais leve,
(Que doce effeito!)
Já respirava
Meu terno peito.
Do cerco apenas
Soltava o gado,
Eu lhe amimava
Aquella ovelha
Que mais amava.
Dava-lhe sempre
No rio, e fonte,
No prado, e selva,
Agua mais clara,
Mais branda relva.