Não quero, que montado
No Pegaso fogoso,
Venhas com dura lança
Ao monstro infame traspassar raivoso.
Deixa que viva a perfida calumnia,
E forge o meu tormento:
Com menos, meu Glauceste,
Com menos me contento.

Toma a lyra doirada,
E toca hum pouco nella:
Levanta a vóz celeste
Em parte que te escute a minha bella;
Enche todo o contorno de alegria;
Não soffras, que o desgosto
Affogue em pranto amargo
O seu divino rosto.

Eu sei, eu sei, Glauceste,
Que hum bom Cantor havia,
Que os brutos amansava;
Que os troncos, e os penedos attrahia.
De outro destro Cantor tambem affirma;
A sábia Antiguidade,
Que as muralhas erguêra
De huma grande Cidade.

Orfeo as cordas fere;
O som delgado, e terno
Ao Rei Plutão abranda,
E o deixa que penetre o fundo Averno.
Ah, tu a nenhum cedes, nem Glauceste;
Na lyra, e mais no canto:
Podes fazer prodigios;
Obrar ou mais, ou tanto.

Levanta pois as vozes:
Que mais, que mais esperas?
Consola hum peito afflito;
Que he menos inda, que domar as féras.
Com isto me darás no meu tormento
Hum doce lenitivo,
Que em quanto a bella vive,
Tambem, Glauceste, vivo.

LYRA VIII.

Eu vejo, ó minha bella, aquelle Numen,
A quem o nome derão de Fortuna,
Pega-me pelo braço,
E com voz importuna
Me diz que mova o passo;
Que entre no grande Templo, em [~q] se encerra,
Quanto o destino manda,
Que ella obre sobre a terra.

Que coizas portentosas nelle encontro!
Eu vejo a pobre fundação de Roma,
Vejo-a queimar Carthago;
Vejo que as gentes doma;
E vejo o seu estrago.
Lá florece o poder do Assyrio Povo:
Aqui os Medos crescem
E os perde hum braço novo.

Então me diz a Deosa: E que pertendes?
Todas estas Medalhas vêr agora?
Ah! não, não sejas louco!
Espaço de annos fôra
Para isto ainda pouco.
Deixo estranhos successos; vem comigo,
Verás quanto inda deve
Acontecer comtigo
.

Levou-me aonde estava a minha historia,
Que toda me explicou com medo, e arte.
Tirei-te libras de oiro
Me diz, e quero dar-te
Todo aquelle thesoiro.
Não suspira por bens hum peito nobre
:
Sevéro lhe respondo.
Vivo affeito a ser pobre.