LYRA VI.
De que te queixas,
Lingua importuna?
De que a Fortuna
Roubar-te queira,
O que te deu?
Este foi sempre
O genio seu.
Levou, Marilia,
A impia sorte
Catoens á morte;
Nem sepultura
Lhes concedeu.
Este foi sempre
O genio seu.
A outros muitos,
Que vís nascêrão,
Nem merecêrão,
A grandes thronos
A impia ergueu.
Este foi sempre
O genio seu.
Espalha a cega
Sobre os humanos
Os bens, e os damnos;
E a quem se devão
Nunca escolheu.
Este foi sempre
O genio seu.
A quanto he justo,
Já mais se dobra;
Nem igual obra
C'os mesmos Deoses
Do cáro Ceo.
Este foi sempre
O genio seu.
Sóbe ao Ceo Venus
N'hum carro ufano;
E cahe Vulcano
Da pura esfera,
Em que nasceu.
Este foi sempre
O genio seu.
Mas não me rouba,
Bem que se mude,
Honra, e virtude:
Que o mais he della,
Mas isto he meu.
Este foi sempre
O genio seu.
LYRA VII.
Meu prezado Glauceste,
Se fazes o conceito,
Que bem que réo abrigo
A candida virtude no meu peito.
Se julgas, digo, que mereço ainda
Da tua mão soccorro;
Ah! vem dar-m'o agora,
Agora sim que morro.