No calmoso Verão as plantas seccão,
Na Primavera, que aos mortaes encanta,
Apenas cahe do Ceo o fresco orvalho,
Verdeja logo a planta.

A doença deforma a quem padece;
Mas logo que a doença fez seu termo,
Torna, Marilia, a ser quem era d'antes,
O definhado enfermo.

Suppo[~e]-me qual doente, ou qual a planta,
No meio da desgraça, que me altera:
Eu tambem te supponho qual saude,
Ou qual a Primavera.

Se dão esses teus meigos, vivos olhos
Aos mesmos Astros luz, e vida ás flores;
Que effeitos não farão, em quem por elles
Sempre morrêo de amores?

LYRA V.

Os mares, minha bella, não se movem;
O brando Norte assopra, nem diviso
Huma nuvem sequer na Esfera toda,
O destro Nauta aqui não he preciso;
Eu só conduzo a náo, eu só modéro
Do seu governo a roda.

Mas ah! que o Sul carrega, o mar se empolla,
Rasga-se a véla, o mastaréo se parte!
Qualquer varão prudente aqui já teme
Não tenho a necessaria força, e arte.
Corra o sabio Piloto, corra, e venha
Reger o duro leme.

Como succede á náo no mar, succede
Aos homens na ventura, e na desgraça:
Basta ao feliz não ter total demencia,
Mas quem de venturoso a triste passa,
Deve entregar o leme do discurso
Nas mãos da sã prudencia.

Todo o Ceo se cubrio, os raios chovem;
E esta alma, em tanta pena consternada,
Nem sabe aonde possa achar conforto.
Ah, não, não tardes, vem, Marilia amada,
Toma o leme da náo, marêa o panno,
Vai-a salvar no porto.

Mas ouço já de Amor as sabias vozes:
Elle me diz que soffra se não morro;
E perco então se morro huns doces laços.
Não quero já, Marilia, mais soccorro,
Oh ditoso soffrer, que lucrar póde
A gloria dos teus braços.