Aos altos Deoses movêrão
Soberbos Gigantes guerra;
No mais tempo o Ceo, e a Terra
Lhes tributa adoração.
Muda-se a sorte dos Deoses;
Só a minha sorte não?
Hade, Marilia, mudar-se
Do destino a inclemencia:
Tenho por mim a innocencia,
Tenho por mim a razão.
Muda-se a sorte de tudo;
Só a minha sorte não?
O tempo, ó bella, que gasta
Os troncos, pedras, e o cobre,
O véo rompe, com que encobre
Á verdade a vil traição.
Muda-se a sorte de tudo;
Só a minha sorte não?
Qual eu sou verá o mundo,
Mais me dará do que eu tinha,
Tornarei a ver-te minha.
Que feliz consolação!
Não ha de tudo mudar-se,
Só a minha sorte não.
LYRA IV.
Já, já me vai, Marilia, branquejando
Loiro cabello, que circúla a testa.
Este mesmo, que alveja, vai cahindo,
E pouco já me resta.
As faces vão perdendo as vivas côres,
E vão-se sobre os ossos enrugando,
Vai fugindo a viveza dos meus olhos;
Tudo se vai mudando.
Se quero levantar-me, as costas vergão;
As forças dos meus membros já se gastão,
Vou a dar pela casa huns curtos passos,
Pesão-me os pés, e arrastão.
Se algum dia me vires desta sorte,
Vê que assim me não pôz a mão dos annos:
Os trabalhos, Marilia, os sentimentos,
Fazem os meus danos.
Mal te vir me dará em poucos dias,
A minha mocidade o doce gosto;
Verás burnir-se a pelle, o corpo encher-se,
Voltar a côr ao rosto.