Pódem muito conheço, pódem muito,
As Furias infernaes, que Pluto move;
Mas póde mais que todas
Hum dedo só de Jove.

Este Deos convertêo em flor mimosa;
A quem seu nome derão, a Narciso,
Fêz d' muitos os Astros,
Qu' inda no Ceo diviso.

Elle póde livrar-me das injurias
Do nescio, do atrevido ingrato povo;
Em nova flor mudar me,
Mudar-me em Astro novo.

Porém se os justos Céos por fins occultos
Em tão tyranno mal me não soccorrem,
Verás então, que os sabios,
Bem como vivem, morrem.

Eu tenho hum coração maior que o mundo.
Tu, formosa Marilia, bem o sabes:
Hum coração, e basta,
Onde tu mesma cabes.

LYRA III.

Succede, Marilia bella,
Á medonha noite o dia:
A estação chuvosa e fria,
Á quente secca estação.
Muda-se a sorte dos tempos;
Só a rainha sorte não?

Os troncos, nas Primaveras,
Brotão em flores viçosos;
Nos Invernos escabrosos
Largão as folhas no chão.
Muda-se a sorte dos troncos;
Só a minha sorte não?

Aos brutos, Marilia, cortão
Armadas redes os passos;
Rompem depois os seus laços,
Fogem da dura prisão.
Muda-se a sorte dos brutos;
Só a minha sorte não?

Nenhum dos homens conserva
Alegre sempre o seu rosto;
Depois das penas vem gosto,
Depois do gosto afflicção.
Muda-se a sorte dos homens;
Só a minha sorte não?