Perder as uteis horas não, não devo
Verás, Marilia, huma idéa nova:
Sim, eu já te escrevo,
Do que esta alma dita
Quanto amor approva.
Quem vive no regaço da ventura,
Nada obra em te adorar, que assombro faça:
Mostra mais ternura
Quem te estima, e morre
Nas mãos da desgraça.
Nesta cruel masmorra tenebrosa
Ainda vendo estou teus olhos bellos,
A testa formosa,
Os dentes nevados,
Os negros cabellos.
Vejo, Marilia, sim, e vejo ainda
A chusma dos Cupidos, que pendentes
Dessa bôcca linda,
Nos ares espalhão
Suspiros ardentes.
Se alguem me perguntar onde eu te vejo,
Responderei—no peito—que huns Amores
De casto desejo
Aqui te pintárão,
E são bons Pintores.
Mal meus olhos te virão, ah! nessa hora
Teu Retrato fizerão, e tão forte,
Que entendo, que agora
Só póde apagallo
O pulso da Morte.
Isto escrevia, quando, ó Céos, que pejo!
Descubro a lêr-me os versos o Deos loiro.
Ah! dá-lhes hum beijo,
E diz-me que valem
Mais que letras de oiro.
LYRA II.
Esprema a vil calumnia muito embora
Entre as mãos denegridas, e insolentes
Os venenos das plantas,
E das bravas serpentes.
Chovão raios e raios, no meu rosto
Não has-de ver, Marilia, o modo escrito;
O medo perturbado,
Que infunde o vil delicto.