Humilde lhe respondo: quem debaixo
Do açoite da Fortuna afflito geme,
Nas mesmas coisas, que só são brinquedos,
Se agoirão males, teme.

LYRA XI.

Se acaso não estou no fundo Averno
Padece, ó minha bella, sim padece
O peito amante, e terno,
As afflições tyrannas, que os Preceitos
Arbîtra Rhadamantho em justa pena
Dos barbaros delictos.

As Furias infernaes, rangendo os dentes
Com a mão descarnada não me applicão
As raivosas serpentes.
Mas cercão-me outros monstros mais irados:
Mordem-me sem cessar as bravas serpes
De mil, e mil cuidados.

Eu não gasto, Marilia, a vida toda
Em lançar o penedo da montanha;
Ou em mover a roda.
Mas tenho ainda mais cruel tormento:
Por coisas que me affligem, roda, e gyra
Cançado pensamento.

Com retorcidas unhas agarrado
Ás tepidas entranhas não me come
Hum abutre esfaimado.
Mas sinto de outro monstro a crueldade:
Devora o coração, que mal palpita,
O abutre da saudade.

Não vejo os pomos, nem as aguas vejo,
Que de mim se retirão, quando busco
Fartar o meu desejo;
Mas quer, Marilia, o meu destino ingrato,
Que lograr-te não possa, estando vendo
Nesta alma o teu retrato.

Estou no Inferno, estou, Marilia bella;
E n'huma coisa só he mais humana
A minha dura estrella:
Huns não podem mover do Inferno os passos;
Eu pertendo vôar, e vôar cedo
Á gloria dos teus braços.

LYRA XII.

Ah, Marilia, que tormento
Não tens de sentir saudosa!
Não podem ver os teus olhos
A campina deleitosa,
Nem a tua mesma Aldêa,
Que tyrannos não proponhão
Á inda inquieta idéa
Huma imagem de afflição.
Mandarás aos surdos Deoses
Novos suspiros em vão.