LYRA XVI.

Vejo, Marilia,
Que o nédeo gado
Anda disperso
No monte, e prado;
Que assim succede
Ao desgraçado,
Que a perder chega
O seu Pastor.
Mas inda soffro
A viva dôr.

Tambem conheço,
Que os Pegureiros,
Que apascentavão
Os meus cordeiros,
Darão suspiros
E verdadeiros;
Porque perdêrão
Hum pai no amor.
Mas inda soffro
A viva dôr.

Eu mais alcanço;
Que a minha herdade
Estando eu prezo,
Soffrer não ha-de
Nem a charrua,
E nem a grade;
Que a mão lhe falta
Do Lavrador.
Mas inda soffro
A viva dôr.

Mas quando sobe
Á minha idéa,
Que tu ficaste
Lá nessa Aldêa.
De mil cuidados
E mágoa cheia;
Das paixões minhas
Não sou senhor.
Eu já não soffro
A viva dôr.

A quanto chega
A pena forte!
Peza-me a vida,
Desejo a morte,
A Jove accuso,
Maldigo a sorte,
Trato a Cupido
Por hum traidor.
Eu já não soffro
A viva dôr.

Mas este excesso
Perdão merece,
E delle Jove
Se compadece;
Que Jove, ó bella,
Mui bem conhece,
Aonde chega
Paixão de amor.
Eu já não soffro
A viva dôr.

LYRA XVII.

Dirceo te deixa, ó bella,
De padecer cançado:
Frio suor já banha
Seu rosto descórado;
O sangue já não gyra pela vêa,
Seus pulsos já não batem;
E a clara luz dos olhos se bacêa:
A lagrima sentida já lhe corre;
Já pára a convulsão, suspira, e morre.

Seu espirito chega
Onde se pune o erro:
Late o cão, e se lhe abrem
Grossos portões de ferro.
Aos severos Juizes se apresenta;
E com sentidas vozes
Toda a sua tragedia representa:
Enche-se de ternura, e novo espanto
O mesmo inexoravel Rhadamantho.